TEMA DE CAPA
NOVEMBRO 2025 REVISTA DRAGÕES poucos metros do lugar onde se erguiam as Antas. As obras arrancaram no final de 2001, com a Somague como empreiteiro principal e um investimento que rondaria os 125 milhões de euros. No papel, tudo parecia alinhado: clube, Estado, Câmara Municipal, promotores privados, mas, na realidade, a construção do Dragão ainda iria conhecer o seu próprio jogo de elevado grau de dificuldade. Em 2002, com o betão a subir e o relógio do Euro a contar ao segundo, muda a presidência da Câmara. Rui Rio entra, olha para o Plano das Antas e decide cortar, de forma drástica, a área comercial inicialmente prevista em torno do estádio. De cerca de 40.000 metros quadrados, passam a sobreviver apenas 10.000. Para o modelo de financiamento montado com o Grupo Amorim e outros parceiros, era como retirar pilares a meio de um edifício já desenhado: simplesmente não
segurava. A reação do FC Porto não se fez esperar. A 2 de março de 2002, Pinto da Costa anuncia a suspensão das obras, em direto das Antas, fala em falta de senso da autarquia e avisa que, assim, não há estádio novo nem Euro 2004 que resista. Seguiram-se dias de guerra fria em versão bem quente: comunicados, sessões de Câmara inflamadas, ameaças de tribunal, telefonemas para a UEFA e manchetes a dizer que o Euro estava em risco. A certa altura, o caso deixa de ser apenas um problema entre o clube e o município e transforma-se num assunto de Estado. Jorge Sampaio, o Presidente da República, entra em campo como mediador e, após semanas de negociações, é encontrado um compromisso que permite reequilibrar o projeto. Em abril de 2002, as máquinas voltam ao trabalho, as gruas regressam à coreografia habitual e o Dragão retoma a construção com um atraso que obriga a desafiar o cronómetro até ao limite. Enquanto o betão subia e as bancadas ganhavam forma, discutia-se também o nome do futuro estádio. Falou-se em Novo Estádio das Antas, chegou a circular a hipótese de um Estádio Pinto da Costa, que o próprio presidente rejeitou liminarmente, e acabou por vencer a solução que parecia estar lá desde sempre: Estádio do Dragão. A escolha sublinhava aquilo que já era evidente – o dragão não é apenas o símbolo do clube, é também a metáfora perfeita para um estádio que nasce da transformação e da vontade de continuar a olhar a cidade de cima. O Dragão é inaugurado a 16 de novembro de 2003, com um FC Porto- Barcelona que termina com a vitória por 2-0 e guarda para a eternidade a estreia discreta de um jovem chamado Lionel Messi. Foi uma noite de festa, fogo de artifício e celebração, mas as
dificuldades ainda não tinham apitado para o fim. O relvado original revelou-se uma dor de cabeça: problemas de drenagem e de assentamento obrigaram o FC Porto a regressar provisoriamente às Antas e a substituir toda a relva, numa corrida contra o tempo que só ficou estabilizada em fevereiro de 2004, poucos meses antes de o estádio receber o jogo de abertura do Europeu. Quando hoje se olha para o Estádio do Dragão, para a forma como redefine o horizonte da cidade, para as noites europeias que já viveu, para os títulos que ajudou a conquistar, é fácil esquecer que o processo de construção teve suspensões, negociações tensas, revisões de planos e um relvado refeito ao sprint. Mas talvez seja justamente essa história, feita de resiliência, conflito e convicção, que o aproxima tanto da identidade do FC Porto. O Dragão é a prova em betão e aço de que, mesmo quando o caminho parece bloqueado, há sempre maneira de encontrar uma saída, desde que a vontade seja mais forte do que qualquer embargo.
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