uma realidade desse tipo nos sugere, o que temos nesse caso nada mais é do que um mecanismo próprio das estruturas de poder no campo científico, cujo objetivo consiste em hierarquizar a produção de informações e de conhecimentos em categorias do tipo superior e inferior, reservando este último rótulo principalmente à produção que advém dos países do Sul Global, ainda muito envolvidos na superação de seus problemas políticos, sociais, educacionais, tecnológicos, econômicos e científicos.
Contudo, acreditamos que é exatamente na linha de enfrentamento das realidades históricas locais, carregadas de particularidades, que as pesquisas locais encontram seu papel e poder de contribuição científica. Em razão disso, defendemos que pesquisas desse gênero não devem ser entendidas como geradoras de informações e de conhecimentos de menor valor para a ciência, mas, comprometidas com a sociedade na qual e para a qual são desenvolvidas. Isso as coloca no centro da concepção vigente de ciência que, de acordo com Velho( 2011), se volta para o estudo das realidades nacionais e locais, na medida em que indivíduos e grupos locais têm sido reconhecidos em seu papel e saber para o sucesso e para a governabilidade das políticas científicas.
3.4. Novo perfil do pesquisador
Em nossa reflexão sobre os desafios que ora discutimos, entendemos que eles apontam não somente para mudanças nas condições contemporâneas de produção de informações e conhecimentos. Pelas respostas que exigem dos pesquisadores eles também indicam a necessidade de uma autoavaliação profunda sobre o modo como se dedicam e conduzem suas práticas científicas, e, desse modo, minimamente ponderam sobre a compatibilização entre antigos e novos perfis acadêmicos. Assim, a questão que se coloca ante aos novos condicionantes sociais, políticos, jurídicos, tecnológicos e éticos que afetam a produção de informações e conhecimentos no campo científico diz respeito aos saberes, às atitudes, às habilidades, ou seja, a competências do tipo novo por serem construídas.
Por certo não podemos atribuir esse processo de mudança somente a fatos isolados, recentes e externos ao campo científico, como se estes fossem os únicos a afetar os pesquisadores em suas práticas. O que se verifica é um movimento de transformação posto em curso também pelos agentes do campo e repercute na ciência como um todo. Isso nos leva a pensar nos limites da mudança paradigmática proposta por Thomas Samuel Kuhn( 1922-1996), para quem as novas ideias e as novas formas de fazer ciência surgem, se difundem e são assimiladas por forças puramente endógenas. Nessa direção, para Kuhn( 2011), a ciência seguiria impermeável aos acontecimentos e às pressões externas sobre o campo científico. Como se sabe tal visão não apenas se mostra frágil como também superada, desconstruindo-se quando a colocamos sob a perspectiva Bourdieu( 1983; 2004) para pensarmos as inter-relações que os diferentes campos mantêm entre si.
Assim, ao admitirmos que as práticas no âmbito do campo científico também se modificam pela ação dos seus agentes – respeitando o princípio de manutenção das estruturas de funcionamento do campo –, Velho( 2011) ajuda-nos a entender
489