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que sejam capazes de capturar e de mostrar mais do que os documentos escritos nos permitem acessar por meio das palavras. 3.2. Desafios políticos Na esfera política, os desafios emergem, sobretudo, a partir dos indivíduos e dos grupos humanos que interessam às Ciências Humanas, Sociais e Aplicações. É nesse sentido que podemos falar da mudança desses sujeitos sobre o modo como percebem a si mesmos diante do pesquisador, esse estranho que se apresenta a eles revestido de um interesse desinteressado – o que Bourdieu (2004) designa como illusio –, a fim obter as informações que, convertidas em conhecimento, serão objeto de publicação em diferentes formatos de documentos. Essa mudança nas pessoas, inclusive naquelas que pertencem às camadas mais populares da sociedade é, em certa medida, produto do maior acesso a informações, tais como àquelas relacionadas aos direitos civis que circulam tanto de boca em boca pelas interações na vida cotidiana quanto pelo rádio, televisão e pelas redes digitais. Em parte, essa mudança também é o resultado do aprendizado que esses indivíduos e grupos desenvolvem a partir de experiências negativas vivenciadas com pesquisadores que não oferecem a eles qualquer retorno dos trabalhos que produzem. Mais politizados, os indivíduos e grupos cada vez menos acolhem o pesquisador sem que este experimente um processo de negociação pelo qual os convença da relevância social da pesquisa, não apenas para a ciência e para o próprio currículo, mas, sobretudo para eles. Assim tem sido no Brasil o trabalho com populações tradicionais que deliberam sobre o aceite, ou não, da presença do pesquisador em suas terras. No estado do Pará, por exemplo, algumas comunidades quilombolas na Região Metropolitana de Belém (RMB) se queixam de pesquisadores que se deslocam até elas, conquistam-lhes a confiança, realizam observações sistemáticas, entrevistas, produzem registros fotográficos, audiovisuais e depois desaparecem sem deixar qualquer benefício, ainda que na forma do acesso aos resultados das pesquisas que eles ajudaram a produzir (Sanches, 2014). Com efeito, descrentes e desconfiadas em relação às pesquisas que acolhem, e na medida em que se sentem saqueadas do ponto de vista informacional, essas comunidades passam a oferecer resistência à presença dos pesquisadores. Um problema que coloca esses últimos agentes diante do desafio de aperfeiçoar as relações que mantêm com indivíduos ou grupos que investigam, não mais para produzirem um conhecimento sobre, mas um conhecimento com eles, e, desse modo, dialogarem e partilharem com essas populações os produtos que resultam da interação pesquisador/colaborador. Um horizonte de possibilidades na mudança da relação entre ciência e sociedade, precipuamente no sentido de aprimorá-la é sinalizado pela ideia de uma ciência aberta e/ou cidadã, que começa a ressoar mais recentemente no Brasil. Como um movimento que carrega ingredientes políticos, culturais, sociais e tecnológicos, essas novas formas de pensar e de fazer ciência têm suas bases construídas sob o princípio do acesso aberto à informação e ao conhecimento, da transparência, do trabalho colaborativo e da valorização dos agentes locais, o que justificaria o envolvimento e a participação mais efetiva de não cientistas nas diferentes etapas da pesquisa (Estalella e Lafuente, 2015; Parra, 2015). Mas, como ideias ainda em 485