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ciência, isto é, os casos nos quais as práticas científicas e os produtos resultantes delas
são levados aos tribunais; ou das pesquisas que precisam se valer da força da lei para
serem conduzidas. Lembramos, nesse sentido, de pacientes com câncer que entram
na justiça contra a Universidade de São Paulo (USP) para ter acesso às cápsulas de
fosfoetanolamina sintética, produzidas experimentalmente no campus de São Carlos –
SP (Piovezan, 2015, agosto 17). Mesmo sem dispor de condições para produzir a
medicação em grande escala, e dependendo de registro junto à Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (ANVISA), essa universidade vem cumprindo a determinação
judicial para fornecer as cápsulas aos pacientes que recorreram ao Poder Judiciário
em busca de medida liminar. Assim, se a USP prosseguirá garantindo o acesso às
cápsulas de fosfoetanolamina sintética por meio da justiça, ou se seguirá pelo caminho
da pesquisa em direção à patente e à produção comercial por laboratórios
farmacêuticos são questões que permanecem abertas nos embates entre os campos e
os agentes envolvidos nessa causa.
3. Desafios na pesquisa científica e novo perfil do pesquisador
Reconhecemos que direta ou indiretamente o campo científico não somente é
afetado como também afeta os demais campos, e muitas são as evidências que
apontam nesse sentido. Isso ocorre, por exemplo, pelos objetos tomados para
pesquisa, construídos a partir do olhar do pesquisador sobre os fenômenos que se
manifestam no campo social, político, econômico e/ou jurídico e que,
posteriormente, repercutem de modo positivo ou negativo nesses campos por meio
de produtos como livros, artigos científicos, jornais impressos, programas de
televisão, rádio e outros, inclusive em formato digital. Uma vez publicados nas redes
digitais, mormente a Internet, os resultados das pesquisas têm seu alcance
significativamente ampliado, podendo ser lidos não só por outros pesquisadores, mas
também por um público potencial que pode variar entre cidadãos comuns, artistas,
empresários, juristas, políticos e pessoas de diferentes ocupações e nível
socioeconômico. No campo social, em particular, a simples presença do pesquisador
durante a condução da pesquisa já produz efeitos pela maneira como ele interage com
os agentes, colocando-os em contato com outros modos de falar, pensar e de agir,
mas principalmente pelas informações e conhecimentos que eles têm acesso nessa
experiência.
Dito isso, acreditamos que é nessa zona de contato onde os campos afetam e
são afetados uns pelos outros que se processam as mudanças gradativamente
incorporadas aos modos de pensar, sentir e de agir dos agentes dos diferentes campos.
No campo científico, por exemplo, ao olharmos para as Ciências Humanas, Sociais e
Aplicações, que têm nos indivíduos e nos grupos humanos todo o manancial de
indagações, inspirações, investigações e (re)criações intelectuais, observamos que elas
são relativamente sensíveis às mudanças que advêm da sociedade, do Estado e do
mercado. Assim, na medida em que essas mudanças se irradiam afetando a ciência em
suas práticas, elas precisam ser entendidas como desafios que emergem para os
pesquisadores, sobretudo no sentido de reverem, repensarem e de adaptarem a
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