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Ao situar a escola como um dos espaços de exercício do poder disciplinar,
Foucault (2013) nos permite vislumbrar a educação em uma dimensão mais ampla,
incluindo a universidade no mesmo rol de outras instituições de confinamento. Isso
porque, para o campo científico, a universidade é o espaço por excelência no qual o
pesquisador é construído na medida em que entrar em contato com o instrumental
teórico, metodológico e linguístico que orientará o comportamento dele para o fazer
científico9. Um processo de formação que tem início ao longo dos cursos de
graduação e que, pouco a pouco, matura nos cursos de mestrado e de doutorado, de
maneira que a leitura, curiosidade, dúvida, criatividade, análise, síntese, crítica, atitude
sistemática e a escrita sejam devidamente incorporadas ao comportamento do
pesquisador quase que de forma natural.
Dito isso e retomando a discussão das relações entre campos distintos, as
universidades ao lado dos institutos de pesquisa são instituições do campo científico
bastante permeáveis às relações com o campo político, jurídico, econômico e o social.
Uma realidade que pode ser evidenciada em diversas circunstâncias e de maneira
muito particularizada no Brasil, onde as pesquisas são majoritariamente financiadas
pelo Estado10. Assim, em tempos de crise econômica global, como a que repercutiu
em 2008, as universidades e os institutos de pesquisa vêm sendo diretamente
impactados em seus orçamentos, mesmo quando dispõem de autonomia em seus
estatutos para buscarem outras fontes de financiamento. De acordo com matéria
divulgada pelo Jornal da Globo (Passarinho, 2015, setembro 21), utilizando dados
obtidos no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), registra-se uma
queda progressiva do investimento estatal em pesquisas no Brasil. Em 2014, o
orçamento do governo era do montante de R$ 7,7 bilhões, caindo em 2015 para R$
7,5 bilhões. Para 2016, o orçamento está estimado em R$ 5,6 bilhões, representando
uma redução acumulada no período de 29%, isto é, de R$ 2,3 bilhões, o que ocorre
no bojo de uma ampla estr atégia de contenção de investimentos para equilibrar as
contas do governo, sobretudo com a crise política que desde as eleições presidenciais
de 2015 repercute negativamente na sociedade brasileira11.
Para além dos efeitos do campo político e econômico sobre as universidades e
os institutos de pesquisa têm-se também aqueles decorrentes das ações conduzidas
nas interfaces entre o campos social, o científico e o jurídico. Particularmente nas
situações em que é possível observar aquilo que entendemos como a judicialização da
O que não significa dizer que esse processo esteja de todo alheio às tensões e às relações de poder e de conflito
vivenciadas entre discentes e docentes, ou, entre orientandos e orientadores no decurso da formação para a
pesquisa. Aliás, tensões e conflitos para os quais a ciência ainda fecha os olhos, talvez para ocultar os problemas
éticos e humanos entre pesquisadores e aprendizes, onde esses últimos encontram-se em posição mais
vulnerável.
10 Dados de 2010 (Realidade brasileira, 2012, setembro) mostram que, comparados aos 34 países que integram
a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que têm investimentos em pesquisa
e desenvolvimento (P&D) da ordem média de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), no Brasil o volume de
investimentos ainda está em torno de 1%, ficando apenas acima de países como México, Argentina, Chile,
África do Sul e Rússia. Por outro lado, enquanto países da América do Norte, Ásia e Europa tem 75% dos
investimentos em pesquisa provenientes do setor privado, no Brasil eles perfazem somente 47% desses mesmos
investimentos, ficando a maior parte a cargo do governo.
11 Referimo-nos à crise política desencadeada pelo resultado das eleições de outubro de 2015, que tem levado
os partidos de oposição ao governo da Presidente Dilma Rousseff (PT) – democraticamente eleita – a ser
destituída do mandato por uma série de manobras políticas que emperram a governabilidade e o crescimento
do país.
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