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poder no campo científico, Bourdieu (2004) entende que os indivíduos que dispõem
de maior volume de capital cultural e social desfrutam de melhor vantagem para obter
sucesso na ciência8.
Uma vez apresentado o conceito de campo e de campo científico, assim como
o modo pelo qual esse último funciona, segundo a lógica que orienta a ação dos seus
agentes, gostaríamos de fazer uma aproximação entre o pensamento de Bourdieu e o
de seu compatriota Michel Foucault (1926-1984), especialmente a partir da noção de
poder. Muito embora essa noção não tenha sido trabalhada por Foucault para
constitui-se em uma teoria do poder propriamente dita, ela nos ajuda a entender
melhor as relações entre pesquisadores no campo científico. Por outro lado, ela nos
leva a pensar as inter-relações e as trocas que se processam entre os agentes que
pertencem e/ou que transitam pelos diferentes microcosmos sociais, ou, melhor
dizendo, por campos distintos, com o propósito de obter benefícios e/ou
reconhecimento.
Nessa direção, embora seja possível distinguir os campos pelas propriedades
que os particularizam, ao modo do que propõe Bourdieu (2004), as fronteiras entre
eles não são impermeáveis às relações com os demais, haja vista os interesses pessoais,
grupais e/ou institucionais que possam motivar a formação de alianças (cooperação),
mesmo que sejam apenas temporárias. Destarte, quando estuda o macrocosmo social
Bourdieu (2004) não pensa os diferentes campos isolados uns dos outros por
fronteiras bem rígidas, mas, em seus relativos graus de autonomia, isto é, sujeitos a
permeabilidades possíveis entre eles, quer em maior ou em menor grau. Um dado
acerca dessas interações históricas entre os campos é fornecido por Foucault (2013).
Para ele, as relações entre campos distintos tal como o científico, o jurídico e o político
são mediadas pelo e para o exercício de um novo tipo de poder, o poder disciplinar,
que nasce a partir do século XVII, no contexto das sociedades modernas, e que se
consolida no século XIX.
Analisando particularmente as Ciências Sociais, em suas articulações com o
campo jurídico – o que em “Vigiar e Punir” aparecerá como uma estratégia de
humanização da pena –, Foucault (2013) fala exatamente dessa relação historicamente
construída que culminou no desenvolvimento de toda uma tecnologia, de todo um
conhecimento científico que se aplica aos indivíduos e aos corpos deles. É assim que
o campo jurídico passa a ser auxiliado pelo campo científico para conhecer os
comportamentos e as subjetividades de homens e de mulheres e, desse modo, proferir
sentenças mais seguras conforme inquéritos e laudos cientificamente elaborados. Por
outro lado, para impor a ordem a todo o custo, o campo político passa a alimentar-se
também dessas informações cientificamente coletadas, analisadas e documentadas
para conduzir as políticas de controle do tempo dos indivíduos, mantendo-os
ocupados em certos espaços de confinamento para torná-los dóceis, isto é, disciplinálos para o convívio em sociedade, tal como ocorre no espaço das fábricas, das escolas,
dos quartéis e das prisões, entre outros.
Sobre o determinismo dos capitais cultural e social na vida dos indivíduos, sobre os quais aqui pensamos
como aqueles que se dedicam à pesquisa científica, há que se relativizar a visão de Bourdieu, pois ele mesmo é
exemplo de pessoa de origem humilde, filho de pais camponeses que, pelo esforço pessoal, consegui traçar uma
brilhante trajetória acadêmica, marcando definitivamente seu lugar nas Ciências Sociais.
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