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ideias”, pois, a ciência como produto social é um campo estabelecido por relações de
interesse e de poder, portanto, por elementos que impedem sua neutralidade. Como
arena de disputas e de tensões – ou como lugar de luta política no qual se busca a
consolidação de determinados paradigmas ou prestígio acadêmico – o campo
científico é atravessado por dois aspectos que destacamos na leitura que fazemos
sobre o mesmo. Um deles refere-se à dimensão política que ele comporta, o que se
evidencia pela escolha do objeto de investigação e pela instituição a qual o pesquisador
está vinculado. Essa dimensão mostra que as pesquisas não necessariamente se
desenvolvem a partir dos interesses pessoais do pesquisador, mas que podem estar
atreladas às demandas institucionais e às pressões de outros campos. Por conseguinte,
ao observar que o grau de autonomia e a governabilidade que as instituições científicas
e os pesquisadores possuem sobre as pesquisas dependem enormemente da
capacidade de refratarem as pressões e as demandas de agentes externos ao campo
científico, Bourdieu (2004) nos alerta para as articulações e para os acordos que
definem as agendas de pesquisa nos países a cada tempo.
Outro aspecto vincula-se às disputas que se processam em torno da produção e
da socialização do conhecimento científico. Essas atividades estão permeadas e
influenciadas pelos efeitos oriundos das disputas de poder, prestígio e de
reconhecimento pelos pares, bem como pelo acúmulo de capital cultural6 e social7.
Assim, no campo científico, o savoir-faire, a experiência, as credenciais e a produção
científica de uma minoria se impõem sobre uma maioria de jovens pesquisadores que,
em sua trajetória acadêmica, disputam intensamente pelo mérito do que produzem.
No campo científico há, por conseguinte, uma dimensão concorrencial na qual as
disputas por ganhos, tais como notoriedade e autoridade dependem, sobretudo, da
capacidade dos agentes de argumentar, demonstrar e de refutar ideias. Trata-se, pois,
de uma luta linguística, cujas armas são dadas pelo volume, pela qualidade e pela
racionalidade das informações e dos conhecimentos que os agentes mobilizam nos
discursos que elaboram para explicar os fenômenos naturais e/ou sociais.
No campo científico, tanto o capital social quanto o cultural são responsáveis
pela criação de hierarquias que podem, ou não, ser alcançadas ao longo da carreira do
pesquisador. É por essa razão que esses capitais podem ser comparados a
investimentos pessoais, coletivos e institucionais para a geração de “lucro simbólico”.
Assim, pesquisadores com muito capital científico acumulado e, por isso, destacados
em relação aos demais, acabam por se tornar pouco receptivos às ideias e às propostas
metodológicas concebidas pelos pares que se encontram em nível de produtividade e
hierárquico inferior, sobretudo quando se trata de jovens pesquisadores. Diante dessa
disputa por posições e por reconhecimento, que marca a existência das relações de
Por capital cultural, em Bourdieu (2010), entenda-se o volume de informações e de conhecimentos que os
indivíduos acumulam ao longo de suas vidas, sendo adquirido inicialmente no núcleo familiar, e,
posteriormente, expandindo-se na vivência escolar e social mais ampla. De um modo geral, esse tipo de capital
é expresso pela bagagem infocognitiva incorporada na interação com a família, pelo acesso a livros,
enciclopédias, computadores e outros materiais de informação, e pelos diplomas obtidos em universidades de
prestígio.
7 Por capital social, em Bourdieu (2010), entenda-se a rede de relações mais ou menos duráveis que os indivíduos
são capazes de construir ao longo de suas vidas, resultando, desse modo, de um intenso trabalho de
sociabilidade para mantê-las. Assim, quanto mais extensa for a rede de relações sociais de um indivíduo, maior
será o volume de capital social.
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