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sobre campo, conceito que se faz presente em diferentes obras do sociólogo francês 5. Ainda assim, importa dizer que Bourdieu não foi o primeiro a utilizá-lo nas Ciências Sociais. Bem antes dele o psicólogo Kart Lewin( 1890-1947), inspirado pela física teórica e pela psicologia social, propôs que as relações entre o indivíduo e seu meio constituem uma espécie de“ campo de força”, no qual pessoas e objetos se veem envoltos por mecanismos de atração e de repulsão que criam zonas de contato e de evitamento, bem como obstáculos que se interpõem ao alcance de determinados fins( Dortier, 2010, 359). Assim, foi a teoria dos campos de Lewin que acabou por inspirar Bourdieu no modo como ele utiliza o conceito de campo na Sociologia, e, por sua vez, nos guia na exposição de nossas ideias.
O conceito de campo e, por extensão, o de campo científico que aplicamos a este trabalho encontra-se em um pequeno livro, fruto de uma conferência proferida por Bourdieu em 11 de março de 1997, no Institut National de la Recherche Agronomique( INRA). Com o título Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico – obra singela no tamanho, mas rica em conteúdo – o sociólogo nos fornece elementos para pensarmos as práticas científicas, assim como a dinâmica das relações mantidas entre os membros da comunidade científica que, na perspectiva de Bourdieu( 2004, p. 21), encontra-se situada em um campo muito específico, mais ou menos independente“ das pressões do mundo social global que o envolve”, de modo que sua autonomia depende da capacidade de lidar com as demandas e com as forças externas que se impõem sobre ele.
Nas teorizações de Bourdieu( 1983; 2004), verifica-se que o conceito de campo quando aplicado às realidades humanas e institucionais específicas representa diferentes recortes do mundo social. É assim que esse conceito sociológico expressa, aos olhos do autor, uma sociedade que se compara ao universo, ou, melhor dizendo, a um macrocosmo composto por vários microcosmos. Do nosso ponto de vista, essa leitura particularizada da sociedade possibilita aos pesquisadores das Ciências Humanas, Sociais e Aplicações contemplarem os fenômenos sociais, artísticos, econômicos, políticos, tecnológicos, jurídicos, e outros, em sua dinâmica interna e interacional. Nessa direção, Bourdieu( 2004) define campo como sendo“ o universo no qual estão inseridos os agentes e as instituições que produzem, reproduzem ou difundem a arte, a literatura ou a ciência. Esse universo é um mundo social como os outros, mas que obedece a leis sociais mais ou menos específicas [...]. A noção de campo está aí para designar esse espaço relativamente autônomo, esse microcosmo dotado de suas leis próprias”( p. 20). Com efeito, ao pensarmos esse conceito nos domínios da ciência tem-se o chamado campo científico, um recorte social no qual pesquisadores e instituições como universidades, institutos de pesquisa, associações e outras são, segundo Bourdieu( 2004), orientados por códigos, valores e normas que estão a orientá-los em suas práticas.
Dinamizado por relações de conflito e de aliança, para Bourdieu( 2004, p. 123) o campo científico é um espaço onde não pode haver uma“ concorrência perfeita das
5 Entre outras publicações de Bourdieu, traduzidas para a língua portuguesa, o conceito de campo também
aparece em obras como: A profissão de sociólogo( 1968); A Reprodução( 1970); Economia das trocas simbólicas( 1971); A Distinção( 1979); Questões de Sociologia( 1980); Homo academicus( 1984); Coisas ditas( 1987); O Poder simbólico( 1989); A Miséria do mundo( 1993); Razões práticas( 1994); Sobre a televisão( 1996); e Considerações sobre o campo político( 2000).
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