Direito e Informação na Sociedade em Rede: atas Direito e Informação na Sociedade em Rede: atas | Page 489

(1930-2002), precisamente sobre o conceito de campo científico, esse microcosmo social dotado de ethos próprio, marcado por relações sociais bastante dinâmicas entre as pessoas e as instituições que o constitui. Assim, ao vislumbrarmos os desafios científicos contemporâneos na esfera ética, política e tecnológica, analisamos as articulações do campo científico com o campo político, jurídico e social, procurando, desse modo, entender como eles são afetados e como afetam a produção e a socialização de informações e de conhecimentos. Processos esses que acontecem em uma sociedade que reconhecemos tal como Castells (1999), configurar-se em uma rede dotada de grande potencial infocomunicativo, porém, carregada de assimetrias em termos de acesso, conteúdo e de uso, conforme as particularidades de cada país. Tal com procuraremos discutir nas partes que seguem a esta introdução, longe de se esgotarem os desafios que contemplamos apontam para mudanças não apenas nas condições contemporâneas para a produção de informações e de conhecimentos científicos. Elas também sinalizam mudanças no perfil do pesquisador para lidar com as novas realidades humanas, legais, institucionais e tecnológicas. Desse modo, mais do que o pesquisador tradicional, que parece conduzir sua pesquisa de maneira descompromissada com o mundo exterior, esse perfil vem sendo progressivamente substituído pelo modelo de um pesquisador dinâmico, político e empreendedor, mais articulado e comprometido com a sociedade em que vive. 2. O Conceito de campo e de campo científico em Pierre Bourdieu Desde a tradição iniciada por Robert Merton (1910-2003) nos anos de 1940, a Sociologia dirigiu gradativamente seu olhar para a comunidade científica. Ao lançar as bases do que veio a ser denominado Sociologia da Ciência, Merton (1973) abriu espaço para que as práticas científicas fossem convertidas em objeto de estudo. Práticas essas pensadas como o conjunto das atividades orientadas para a produção racional e sistemática de informações e de conhecimentos científicos, quais sejam sobre a natureza ou sobre a sociedade. Curiosamente, a iniciativa dele se deu no bojo da Segunda Guerra Mundial, quando EUA, Inglaterra e Canadá trabalharam de forma colaborativa no Manhattan Project para a construção da bomba atômica. Uma experiência que a partir de 1945 provocou muitos questionamentos e críticas dentro e fora do campo científico quanto às práticas conduzidas nele, precipuamente após o genocídio provocado em Hiroshima e em Nagasaki. Com efeito, nesse ramo da Sociologia inaugurado por Merton, Pierre Bourdieu também deixa uma significativa contribuição no sentido de desvelar e de entender a organização e as práticas dos cientistas, isto é, de pessoas que estão inseridas em uma comunidade dotada de valores, lógicas e de normas próprias. Um ethos, cuja compreensão só a própria ciência pode levar a cabo. Quando pensamos a relação da CI com as Ciências Humanas, Sociais e Aplicações procurando olhar a comunidade científica em suas práticas, valores, normas e relações, reportamo-nos a Pierre Bourdieu, precisamente ao que ele teoriza 477