Direito e Informação na Sociedade em Rede: atas Direito e Informação na Sociedade em Rede: atas | Page 395

A indistinção entre cultura e natureza supramencionada faz do homem imerso na compreensão mítica do mundo um indivíduo incapaz de estabelecer diferenças entre o seu sentido interno e externo. Dessa forma, ele não encontra instrumentos para pôr a sua cultura e a concepção de mundo que ela carrega em discussão. Aí reside precisamente o problema da compreensão mítica de mundo: ela não viabiliza a reflexibilidade aos indivíduos por ela absorvidos. E sem essa reflexividade, sem essa capacidade crítica poder se manifestar, a própria racionalidade de tal compreensão fica comprometida (Hansen, 1999, p. 29-30). Daí que a imagem do mundo constituída lingüisticamente possa ser identificada a tal ponto com a ordem mesmo do mundo que não possa ser reconhecida como tal em sua qualidade de interpretação do mundo, ou seja, de uma interpretação sujeita a erros e suscetível de crítica. Neste aspecto a confusão de natureza e cultura assume o significado de uma reificação da imagem do mundo (Habermas, 1992, v. I, p. 79). E esta postura ontológico-metafísica, segundo a qual eu objetualizo a verdade e me torno detentor deste “objeto” em mim, faz com que eu me torne impermeável à crítica e assuma uma postura absoluta e fundamentalista. O cenário descrito até aqui é decisivo para que compreendamos um aspecto que nos parece crucial na atualidade: a gestão do conhecimento e da informação, inclusive da informação eletrônica, estão eivados de uma perspectiva ontológico-metafísica que interfere profundamente no modo através do qual as pessoas agem nas instituições e tratam a informação produzida e circulante nestas. Mas o que queremos dizer quando diferenciamos conhecimento e informação institucionais? Compreendemos e aproximamos a noção conhecimento ao saber que é produzido por uma pessoa em relação com outra, ou por pessoas inseridas em instituições que interagem com outras instituições. E nos remetendo a uma distinção típica contida na raiz da palavra saber, esta implica a dimensão dupla do “sapere”, por um lado, entendido como informação que é produzida, e “sapore”, por outro lado, acolhido como o “sabor” que imprimimos às informações em ambientes específicos, transformando o significado (dimensão semântica) das informações para melhor responderem aos desafios de determinado contexto (dimensão pragmática). Sob este prisma, pouco adianta gerarmos informações em profusão no âmbito das instituições se não as saboreamos, se não as tornamos fontes de transformações institucionais no sentido da melhoria da qualidade destas em seu acontecer na sociedade. Quando, porém, assumimos uma postura ontológico-metafísica com relação ao conhecimento e à informação, passamos a congelar como verdade um saber determinado. Assim, um significado possível, num horizonte de significados em disputa, passa a ser guindado à condição de ser “o” significado, absolutizado e absolutizante, único admitido como verdade. 383