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A indistinção entre cultura e natureza supramencionada faz do homem imerso
na compreensão mítica do mundo um indivíduo incapaz de estabelecer diferenças
entre o seu sentido interno e externo.
Dessa forma, ele não encontra instrumentos para pôr a sua cultura e a
concepção de mundo que ela carrega em discussão. Aí reside precisamente o
problema da compreensão mítica de mundo: ela não viabiliza a reflexibilidade aos
indivíduos por ela absorvidos. E sem essa reflexividade, sem essa capacidade crítica
poder se manifestar, a própria racionalidade de tal compreensão fica comprometida
(Hansen, 1999, p. 29-30).
Daí que a imagem do mundo constituída lingüisticamente possa ser identificada a tal
ponto com a ordem mesmo do mundo que não possa ser reconhecida como tal em sua
qualidade de interpretação do mundo, ou seja, de uma interpretação sujeita a erros e
suscetível de crítica. Neste aspecto a confusão de natureza e cultura assume o significado
de uma reificação da imagem do mundo (Habermas, 1992, v. I, p. 79).
E esta postura ontológico-metafísica, segundo a qual eu objetualizo a verdade e
me torno detentor deste “objeto” em mim, faz com que eu me torne impermeável à
crítica e assuma uma postura absoluta e fundamentalista.
O cenário descrito até aqui é decisivo para que compreendamos um aspecto que
nos parece crucial na atualidade: a gestão do conhecimento e da informação, inclusive
da informação eletrônica, estão eivados de uma perspectiva ontológico-metafísica que
interfere profundamente no modo através do qual as pessoas agem nas instituições e
tratam a informação produzida e circulante nestas.
Mas o que queremos dizer quando diferenciamos conhecimento e informação
institucionais?
Compreendemos e aproximamos a noção conhecimento ao saber que é
produzido por uma pessoa em relação com outra, ou por pessoas inseridas em
instituições que interagem com outras instituições. E nos remetendo a uma distinção
típica contida na raiz da palavra saber, esta implica a dimensão dupla do “sapere”, por
um lado, entendido como informação que é produzida, e “sapore”, por outro lado,
acolhido como o “sabor” que imprimimos às informações em ambientes específicos,
transformando o significado (dimensão semântica) das informações para melhor
responderem aos desafios de determinado contexto (dimensão pragmática).
Sob este prisma, pouco adianta gerarmos informações em profusão no âmbito
das instituições se não as saboreamos, se não as tornamos fontes de transformações
institucionais no sentido da melhoria da qualidade destas em seu acontecer na
sociedade.
Quando, porém, assumimos uma postura ontológico-metafísica com relação ao
conhecimento e à informação, passamos a congelar como verdade um saber
determinado. Assim, um significado possível, num horizonte de significados em
disputa, passa a ser guindado à condição de ser “o” significado, absolutizado e
absolutizante, único admitido como verdade.
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