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É esse aspecto reflexivo que caracteriza o ser humano e que o permite acumular
informações, mas também ultrapassá-las e rearranjá-las de tal modo que novos
conhecimentos disso derivam. Também é esse aspecto que viabiliza o acúmulo de
informações e o aprendizado, transmitido através das gerações, num processo de
construção coletiva e intersubjetiva de significados que, uma vez assimilados,
possibilitam a repetição de procedimentos necessários à manutenção da existência, mas
igualmente potencializam a criação de alternativas às ações e às experiências geradoras
de problemas, de forma a que não sejam repetidas e não provoquem equívocos
reiterados que ponham em risco a própria natureza e a espécie humana (Hansen, 2012,
p. 56).
Eis que daí resulta o que comumente denominamos conhecimento, enquanto
produto intersubjetivo e relacional gerado pela espécie humana e acumulado através
das gerações.
Somente graças à capacidade racional é que conseguimos, finalmente, discernir e
delimitar o meu e o teu, o ego e o alter, construindo a subjetividade e a possibilidade do
encontro de um outro que não eu, com o qual posso estabelecer uma relação, um
vínculo, um aprendizado, do qual pode resultar uma experiência cognitiva (Hansen,
2012, p. 57).
Neste processo de construção do conhecimento, vamos estabelecendo um
conjunto de referenciais internos, na forma de imagens de mundo, que passam a servir
de parâmetro a partir do qual avaliamos as palavras, as atividades e as interações no
mundo. Tais referenciais, quando partilhados e assumidos por uma coletividade,
tornam-se compreensões de mundo a nortear a vida em sociedade.
Deste modo, quando dizemos que gostamos de tal música e não de outra, que
nos apraz tal alimento e não outro, que achamos correto ou incorreto o que aconteceu
em tal situação, que reputamos como justa ou injusta uma dada conduta, estamos
exercitando esta capacidade de julgar, criticar e avaliar a partir de parâmetros que nos
servem de porto seguro e balizamento. E tomamos atitudes, construímos ou
rompemos relações, fazemos a paz ou a guerra, com base nestas avaliações e
parâmetros, que assumem a condição de nossa “verdade”.
Esta verdade adquire um caráter histórico, à proporção que podemos submeter
ao crivo da crítica as nossas convicções e, com isso, aperfeiçoar, modificar, ultrapassar
determinadas concepções que se mostrem parciais, equivocadas, preconceituosas,
imprecisas, inadequadas.
Entretanto, quando assumimos uma postura mítica, de naturalização e reificação
das nossas verdades, damos a elas um caráter ontológico-metafísico, como se fossem
seres (ontos) que têm uma existência independente de qualquer elemento contingencial
e que se tornaram propriedades da nossa razão. Isso gera para a razão humana, nas
suas imagens do mundo,
(...) uma ilusão sobre si mesma e uma ilusão sobre o mundo: uma ilusão sobre si mesma
porque o pensamento dota às idealidades que gera espontaneamente de uma existência
fora do homem e independente dele, com o qual se torna estranho de si mesmo em suas
próprias imagens do mundo, e uma ilusão sobre o mundo, ao que povoa de seres
imaginários análogos ao homem, que podem responder a seus pedidos atendendo-os
ou rechaçando-os (Habermas, 1992, v. I, p. 76).
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