Direito e Informação na Sociedade em Rede: atas Direito e Informação na Sociedade em Rede: atas | Page 394

É esse aspecto reflexivo que caracteriza o ser humano e que o permite acumular informações, mas também ultrapassá-las e rearranjá-las de tal modo que novos conhecimentos disso derivam. Também é esse aspecto que viabiliza o acúmulo de informações e o aprendizado, transmitido através das gerações, num processo de construção coletiva e intersubjetiva de significados que, uma vez assimilados, possibilitam a repetição de procedimentos necessários à manutenção da existência, mas igualmente potencializam a criação de alternativas às ações e às experiências geradoras de problemas, de forma a que não sejam repetidas e não provoquem equívocos reiterados que ponham em risco a própria natureza e a espécie humana (Hansen, 2012, p. 56). Eis que daí resulta o que comumente denominamos conhecimento, enquanto produto intersubjetivo e relacional gerado pela espécie humana e acumulado através das gerações. Somente graças à capacidade racional é que conseguimos, finalmente, discernir e delimitar o meu e o teu, o ego e o alter, construindo a subjetividade e a possibilidade do encontro de um outro que não eu, com o qual posso estabelecer uma relação, um vínculo, um aprendizado, do qual pode resultar uma experiência cognitiva (Hansen, 2012, p. 57). Neste processo de construção do conhecimento, vamos estabelecendo um conjunto de referenciais internos, na forma de imagens de mundo, que passam a servir de parâmetro a partir do qual avaliamos as palavras, as atividades e as interações no mundo. Tais referenciais, quando partilhados e assumidos por uma coletividade, tornam-se compreensões de mundo a nortear a vida em sociedade. Deste modo, quando dizemos que gostamos de tal música e não de outra, que nos apraz tal alimento e não outro, que achamos correto ou incorreto o que aconteceu em tal situação, que reputamos como justa ou injusta uma dada conduta, estamos exercitando esta capacidade de julgar, criticar e avaliar a partir de parâmetros que nos servem de porto seguro e balizamento. E tomamos atitudes, construímos ou rompemos relações, fazemos a paz ou a guerra, com base nestas avaliações e parâmetros, que assumem a condição de nossa “verdade”. Esta verdade adquire um caráter histórico, à proporção que podemos submeter ao crivo da crítica as nossas convicções e, com isso, aperfeiçoar, modificar, ultrapassar determinadas concepções que se mostrem parciais, equivocadas, preconceituosas, imprecisas, inadequadas. Entretanto, quando assumimos uma postura mítica, de naturalização e reificação das nossas verdades, damos a elas um caráter ontológico-metafísico, como se fossem seres (ontos) que têm uma existência independente de qualquer elemento contingencial e que se tornaram propriedades da nossa razão. Isso gera para a razão humana, nas suas imagens do mundo, (...) uma ilusão sobre si mesma e uma ilusão sobre o mundo: uma ilusão sobre si mesma porque o pensamento dota às idealidades que gera espontaneamente de uma existência fora do homem e independente dele, com o qual se torna estranho de si mesmo em suas próprias imagens do mundo, e uma ilusão sobre o mundo, ao que povoa de seres imaginários análogos ao homem, que podem responder a seus pedidos atendendo-os ou rechaçando-os (Habermas, 1992, v. I, p. 76). 382