Contemporânea Contemporânea #9 | Page 8

Se fosse um tipo diferente de terapia, onde o modus operandi fosse a “conscientização”, o/a transexual pode não achar tão necessário recorrer à cirurgia de conversão de sexo. [...] Até que os problemas que a psiquiatria delegou como sendo seus sejam estendidos a uma crítica geral da sociedade patriarcal, o transexualismo não será entendido como uma manipulação médica da ação e do significado social e individual. (RAYMOND, 1979, p.124)

Prosser identifica nas teorias de Raymond a criação de um construtivismo depreciativo, cuja função seria desvalorizar e discriminar a transexualidade, rotulando-a como “não-natural” ou então “ainda-menos-natural” que a categoria “mulheres”. Na visão do autor, esse uso da palavra “construção” reitera a falsa premissa de que as/os transexuais fomos “construídas/os de uma forma mais literal que as pessoas cisgênero.” (Prosser, 1998, p.9).

Pode-se dizer que, esboçando a noção de biopoder, Raymond utiliza a figura transexual como alegoria da conquista e da dominação dos processos vitais pela ciência. Entretanto, conforme apontado por Prosser, essa perspectiva construtivista parece ser aplicada exclusivamente à transexualidade, deixando de fora análises acerca das contribuições da biologia para a criação e regulação das categorias “homem/masculino” e “mulher/feminino”. De fato, a transexualidade jamais foi considerada um “objeto natural”, e, justamente por referenciar a polaridade natural/artificial, uma das perturbações que carrega diz respeito à divisão natureza/cultura. A esse respeito, vale atentar para o fato de que historicamente atribuiu-se à biologia o poder soberano de qualificar o que seria construído como “natural” e opor a esse critério o seu outro (o “anti-natural”).

Conforme brevemente pincelado, a agência, a experiência e a contribuição das pessoas transexuais são raramente reconhecidas na história da criação da categoria, uma vez que essa identidade foi expelida do domínio natural, construída como “corpo doente” por meio dos saberes médicos e reformulada no discurso feminista radical como “objeto artificial” (desasujeitado). Se, de um lado, o feminismo radical oferece um transexualismo-Frankenstein, que só passa a existir quando é inventado pela ciência, de outro surgem perspectivas que veem a transexualidade como “conceito interativo” capaz de intervir na realidade que a designa, indicando que talvez as pessoas transexuais estivemos por muito tempo presas em um corpo teórico errado.

Palavras-chave

Transexualidade; monstruosidade; feminismo; intervenção somática

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