Em sua resposta a Hausman, Prosser aponta que a teoria construtivista da transexualidade tolhe a autonomia transexual ao excluir e invisibilizar a contribuição desses sujeitos para a construção de sua identidade. O autor identifica que alguns dos efeitos dessa vertente ideológica são a des-subjetivação e a deslegitimação da autoenunciação trans*: os/as transexuais não são vistos como sujeitos que constroem, o poder enunciativo (lembrando que o diagnóstico de “transexualismo” se dá por meio de sessões de terapia de natureza puramente discursiva) que remonta a esse sujeito é atribuído exclusivamente ao legado médico, de forma a invalidar “não só a capacidade do sujeito de iniciar e efetuar sua própria transição somática, mas também de informar e redefinir a narrativa médica da transexualidade”2. Como resposta, o autor afirma que a quem se instituiu nomear “transexuais” compreende uma subjetividade ativa, que existiu como sujeito discursivo antes da patologia, das cirurgias e da terapia hormonal, ou seja, que essa categoria implica a trajetória histórica de sujeitos desejantes, que forjaram recursos diversos (inclusive tecnologias científicas e não-científicas) para a sua corporificação (embodiment). Retrucando os argumentos feministas radicais (que, vale dizer, geraram um marco teórico ainda utilizado de forma recorrente nas pesquisas acadêmicas sobre transexualidade), Prosser oferece a perspectiva de que não foi a ciência que criou o sujeito transexual, foram as pessoas transexuais quem transformam profundamente o saber científico e suas tecnologias.
Alinhando-se às teorias de Hausman, Janice Raymond reforça a posição segundo a qual a instituição médica inventou o sujeito transexual. Sua retórica, tradicionalmente investida contra o “regime patriarcal”, é construída com argumentos e vocabulário enraizados nas ideias feministas radicais: por exemplo, um dos artifícios utilizados para invalidar a identidade transexual é a substituição do termo “mulher transexual” ou MTF (male to female / de-homem-para-mulher) por male-to-constructed-female (de-homem-para-mulher-construída), sugerindo que há algo (mais) artificial na construção da identidade transexual, uma espécie de falsificação do real. Raymond argumenta que o “transexualismo” não teria sido meramente acolhido pela ciência, senão construído por ela afim de regular os corpos e divergir a atenção do real problema social: a divisão dos sexos e gêneros3. Para a autora, o “transexualismo” reafirmaria os gêneros, e se trataria de mais uma ferramenta de “controle patriarcal”, cujo objetivo seria o de reinstaurar a norma contestada pelos movimentos de libertação da mulher.
Ao reinserir o debate nature-nurture (natureza-socialização) e argumentar que as “perturbações” que levaram à construção do “transexualismo” teriam origem exclusivamente sócio-política e que a “condição” seria, portanto, passível de reorientação ou desconstrução, Raymond reivindica a extinção do “transexualismo” e do tratamento oferecido às pessoas transexuais, uma vez que, segundo ela, essa se trataria de uma invenção científica fundamentada em premissas enganosas: “é biologicamente impossível mudar o sexo cromossômico, e, portanto, o transexual não é realmente transexuado” (RAYMOND, 1979, p.125). Em contrapartida, advogando especialmente contra as intervenções somáticas transexualizadoras (com ênfase nas cirurgias), a autora oferece métodos que considera mais efetivos e éticos para solucionar, senão, obliterar o “problema transexual”. A autora propõe a substituição das cirurgias e do tratamento hormonal por uma correção terapêutica que não seja orientada pelo discurso médico e que conserve a integridade do “corpo nativo”:
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