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Teratologias trans*: novos olhares à criatura de
Frankenstein e ao “berço científico” da transexualidade
Em seu livro Gyn/ecology: The Metaethics of Radical Feminism (1978), no breve tópico Boundary Violation and the Frankenstein Phenomenon (A violação de fronteiras e o fenômeno Frankenstein), a feminista radical Mary Daly se refere às tecnologias somáticas associadas às cirurgias de redesignação de sexo como saberes oriundos das “ciências mortuárias”. Abordando os processos e efeitos dessas tecnologias que intitula de “falocêntricas”, a autora toma como referência o livro Frankenstein (1818) da inglesa Mary Shelley (1797–1851), a fim de criar uma analogia entre os dois personagens principais (o Dr. Victor Frankenstein e sua criatura) e a transexualidade feminina.
Dentre outras coisas, a metáfora do monstro de Frankenstein surge aplicada à figura transexual denotando que sem o aparato tecno-médico a “criatura” não existiria: no pensamento feminista radical “o/a transexual aparece como efeito passivo da medicina, um tipo de produto tecnológico sem consciência: sujeito transexual somente porque sujeito à tecnologia médica” (PROSSER, 1998, p.7). Nessa perspectiva os/as transexuais seriam “os [monstros de] Frankenstein dos experimentos da tecnologia moderna com a diferença sexual” (Prosser, 1998, p.8) e a ciência seria uma versão deturpada de “mãe”, que se serve de artifícios tecnológicos para gerar corpos aberrantes.
Essa vertente ideológica que condiciona a existência (histórica, cultural, material e simbólica) do sujeito transexual às tecnologias e à patologização oriundas do domínio médico recebeu o título de “teoria construcionista da transexualidade” e, segundo Jay Prosser, foi formulada principalmente pela feminista radical Janice Raymond (cujo livro The Transsexual Empire: the making of the she-male é dedicado a Mary Daly) e pela acadêmica feminista Bernice L. Hausman.
Assim como Raymond, Hausman atribui a criação da categoria transexual aos interesses médicos: para ela a ciência estaria manipulando o corpo sexuado visando maior dominação e controle social. Na conclusão de seu livro Changing Sex: Transsexualism, Technology, and the Idea of Gender, Hausman coloca que “demandando a intervenção tecnológica para “mudar de sexo”, transexuais demonstram que seu relacionamento com a tecnologia é de dependência” (1995 p.110), pois “transexuais precisam procurar e obter tratamento médico para serem reconhecidos como transexuais. Toda a sua posição de sujeito depende de uma relação necessária com a instituição médica e seus discursos.” (HAUSMAN, 1995, p. 148). Também nesse sentido, Hausman, erroneamente, alega que, diferentemente dos homossexuais, que conseguiram se libertar da medicina, as/os transexuais pedem por mais regulações médicas.
Pode-se dizer que Hausman reduz a experiência transexual ao controle e às intervenções médicas e, nesse exercício, descreve os sujeitos transexuais como tolos (verdadeiras marionetes da medicina e dos regimes hegemônicos de sexo/gênero), além de representá-los como seres manipulativos e enganosos (dupes of gender)1. Ademais, a autora acaba também deslegitimando o desejo e a agência dos sujeitos transexuais ao inscrever os laços da transexualidade com a medicina numa estrutura que remonta à soberania da ciência na construção da categoria e a total submissão dos/as transexuais aos termos por ela instituídos.
Lino Arruda