O título escolhido para o dossiê faz alusão à ideia de que para permanecer e atravessar o campo acadêmico quando não há dimensões de pertencimento a categorias hegemônicas, nesse caso a cisgênera, é necessário reiterar debates sobre territórios e fronteiras, evidenciando a pluralidade das temáticas aqui abordadas, bem como os diversos estilos de escrita. Deste modo, iniciamos o número com uma crítica à construção da categoria transexual quando compreende o sujeito trans como uma invenção científica, passando pela noção de corpo doente ao “objeto artificial” com a metáfora da criatura do Frankstein. O segundo texto promove uma reflexão sobre pânico moral e o impacto nas vidas da população trans no contexto atual da política brasileira. Na sequência apresentam-se um relato de experiência e cinco narrativas autobiográficas. O primeiro narra o experimento de uma oficina de escrita criativa para pessoas LGBT+ como uma possibilidade de romper com os modelos tradicionais de escrita. As narrativas, versam sobre a (auto)identificação e construção de espaços de (re)existências; o entrelaçamento das categorias raça e gênero na literatura preta e na experiência transviada de uma bixa preta; a experiência escolar de uma travesti e a ressignificação dos espaços de existência e resistência; como a Universidade, que também atravessa as experiências narradas anteriormente, é espaço possível para as vidas trans.
Ilha de Santa Catarina, fevereiro de 2020.
Keo Silva
Julian Pegoraro Silvestrin
Alexandre Fernandez Vaz
(Organizadores)
Retomando
É também com alegria que a Contemporânea (uma quase revista) volta a ser publicada regularmente retomando seu projeto de seguir analisando o tempo presente. Neste sentido, nada mais atual que os debates apresentados por este conjunto de textos que colocam sob tensão a conjuntura sócio-política brasileira (quiçá mundial) que se configura, neste momento, por um crescente conservadorismo, autoritarismo, violência e repressão, notadamente dirigido a grupos tradicionalmente marginalizados. A editoria dessa quase revista mantém sua defesa ao pensamento crítico e livre, exercício cada vez mais difícil e, também por isso, cada vez mais necessário.
Ilha de Santa Catarina, Rio de Janeiro, Campinas, Montevidéu
Alexandre Fernandez Vaz, Michelle Carreirão Gonçalves, Raumar Rodríguez Giménez.