Contemporânea Contemporânea #9 | 页面 4

EDITORIAL

Transpondo o corpo acadêmico: perspectivas trans na Universidade

Em diferentes formatos e registros, os oito trabalhos que conformam este dossiê tratam de temáticas afeitas a pessoas trans. São todos eles encarnados na memória e na radicação histórica de cada autor e autora, uma vez que, sem exceção, são pessoas trans que, de lugares muito próprios, os escreveram. Falam de resistência e dizem de possibilidades, apontam barreiras, mas também experiências de sua superação. Fazendo encontrar corpo e sociedade, inscrevem-se do lado certo da batalha cultural e política que desde muito se coloca, mas que hoje ganha contornos decisivos.

Além de abordar memórias, o conteúdo dos escritos questiona estruturas de poder e instituições que moldam corpo e gênero, assim como discursos de exclusão que se mascaram de teoria. Comprometendo-se com a construção de uma perspectiva crítica do presente, demonstram a importância de se produzir conhecimento a partir de outros prismas, a partir do olhar de outros sujeitos historicamente invisibilizados.

Escapando do destino comum de exclusão que marca as experiências trans no Brasil, principalmente quando se fala em espaços de educação formal, como a escola e a universidade, os autores e autoras são alunos e alunas de programas de Pós-graduação na Universidade Federal de Santa Catarina e fazem ou fizeram parte do Núcleo de Estudos das Travestilidades, Transexualidades e Transgeneridades (NeTrans). Ao contribuírem com esse compilado de textos também têm o propósito de posicionarem-se frente ao contexto político que coloca em risco não só os direitos alcançados pela população trans em termos de cidadania, mas, sobretudo, que ameaçam vidas e saberes.

Assim, no intuito de demonstrar a multiciplicidade de narrativas possíveis entre as vidas trans e a diversidade na produção de conhecimento sobre as questões que atravessam tais experiências produzidas pelos próprios sujeitos, reunimos nesse dossiê produtos de diferentes perspectivas e áreas do conhecimento que emergem em oposição a visões engessadas a respeito da própria categoria transexual, criada pela ciência, e que se mostra obsoleta diante das diferentes possibilidades reafirmadas cotidianamente.