Contemporânea Contemporânea #9 | Página 26

26

possível apagar. Foi aí que senti a necessidade de suspender minha atuação como docente para viver o processo mais tranquilamente. Esse foi um exercício de autoconhecimento, reelaboração de propósitos, ressemantização da vida (parafraseando Wagner Xavier de Camargo em “Tempo de parar”) . A Universidade , então, apresentou-se a mim de outra forma, como heterotopia. Uma porta de entrada para, seguindo a carreira acadêmica agora como doutorando, poder viver essa identidade outra e assumir esse corpo outro. autoconhecimento, reelaboração de propósitos, ressemantização da vida (parafraseando Wagner Xavier de Camargo em “Tempo de parar”)1 . A Universidade2, então, apresentou-se a mim de outra forma, como heterotopia. Uma porta de entrada para, seguindo a carreira acadêmica agora como doutorando, poder viver essa identidade outra e assumir esse corpo outro.

Foucault bem pontua que não se entra nos lugares heterotópicos à vontade; a entrada é obrigatória em alguns casos ou há que se ter permissão e se submeter a rituais em outros. Há também os que parecem conter aberturas, mas que escondem exclusões. E o que é a nossa Academia senão um espaço excludente onde alguns poucos selecionados (de forma arbitrária e ritualizada) adentram?

Ainda, para Foucault, a heterotopia funciona quando os sujeitos “se encontram em uma espécie de ruptura absoluta com seu tempo tradicional”. Ora, a Academia não rompe necessariamente com o tempo tradicional, mas há um tensionamento com ele. Pois, é um lugar que (re)produz hierarquias – quem ali de fato pode usufruir do privilégio do tempo em uma instituição que não está alheia aos modos de produção capitalista de modelo meritocrático-neoliberal? –, mas, também que impõe um ritmo e possibilidades de lidar com a matéria e consigo mesmo diferentes de outros espaços de trabalho.

Nas heterotopias reside a contestação de todos os outros espaços. Como um espaço ilusório, denuncia também o resto da realidade como ilusão. Ou como espaço real “perfeito”, ordenado, denuncia a realidade desordenada e desarranjada em que vivemos. Quando vemos grupos de pessoas ocupando espaços que não são socialmente destinados a eles, somos levados a contestar a normalidade (e normatividade) dos lugares que a elas cabem e dos que não deveriam ocupar. Pensemos sobre a Universidade como sendo um espaço de construção de conhecimentos e vivências travestis, por exemplo.

Peter Sloterdijk havia chamado a Academia de Platão de heterotopia. Segundo o filósofoalemão, ela é precursora da postura que ecoa a epoché husserliana, como “uma casa para se desligar do mundo e pôr as preocupações da vida entre parênteses”. Como um lugar de regras próprias inserido num outro lugar maior com regras também próprias, não é utopia, mas “um lugar real em que a regra é a paz do confronto das ideias” (Sloterdijk, 2014, p. 45). Salvaguardando diferenças com a Academia de Platão, para não cairmos em anacronismos, vi nessa “paz da academia” um espaço em que o confronto de ideias não seria obrigatoriamente um confronto com a minha existência.

Esses termos que aqui proponho, pensar a Universidade como heterotopia – como um lugar especial de trabalho e de trabalho sobre si – só são possíveis pela luta e vigília diárias pela garantia de direitos e implementação de políticas públicas que garantam acesso e permanência da população trans nesse espaço, como nome social, uso de banheiros conforme auto identificação de gênero e também cotas (que tem se tornado realidade em algumas poucas instituições).