Contemporânea Contemporânea #9 | Page 25

Ao chegar aos trinta anos deparei-me com a urgência de fazer do meu corpo um outro corpo. As tatuagens e piercings que o arrancavam de seu espaço original e o projetavam em um espaço outro, como sugeria Foucault, já não eram suficientes. Como utopia implacável, precisava de intervenções mais radicais.

Na época, lecionava em um curso de graduação em Educação Física e aos poucos fui modelando meu corpo conforme meu desejo. Lembro que o corpo é também o entorno que o circunscreve (roupas, acessórios, intervenções), e o vestuário já não era mais uma questão para mim há mais de uma década – com meu primeiro salário, aos quinze anos, já comprava roupas masculinas. Entretanto, nesse período de ressignificação passei a disfarçar os seios com fita micro porosa e faixa compressora.

A cada minuto observava e absorvia os olhares desconfiados, desde entrar no ônibus (o trajeto até a universidade eu percorria em transporte público), passar pela guarita e cumprimentar os outros trabalhadores, adentrar à secretaria do curso e a sala de professores, até finalmente chegar à sala de aula. Também era um experimento frequentar a escola – orientava o estágio obrigatório na educação básica – pois ora os funcionários da escola me confundiam com aluno, ora me viam como o jovem professor de contrato temporário, mas nunca como a professora da Universidade. Importante frisar o gênero aqui, porque por mais que me apresentasse no feminino, era lido no masculino. Habitava um lugar de gênero não inteligível, pois a representação que se tem de mulheres adultas implica em outras performances de gênero que eu não apresentava, por exemplo, nas vestimentas e comportamentos. Meu corpo “mirrado”, de baixa estatura e sem pelos também denunciava que não poderia ser um homem adulto.

De repente, apagar os seios também tampouco era suficiente. Senti que precisava começar a hormonioterapia, com testosterona. Havia a possibilidade de fazê-lo como Paul-Beatriz Preciado (não há como negar que sua experiência e pensamento apresentaram possibilidades para outros sujeitos em contato com a Academia) aplicando gel sobre a pele diariamente, porém o processo de transição seria mais lento e caro. Embora a demora na aparência das modificações corporais por essa tecnologia pudesse me trazer maior conforto na posição que ocupava, a verdade é que havia pressa. Já vivia uma identidade masculina fora dali, já tinha outro nome. Foram ainda alguns breves e intensos anos alternando a chave feminino-masculino.

As primeiras injeções vieram e com elas a voz foi começando a falhar e depois foi ficando mais grave, o rosto mais quadrado e nele começaram a aparecer alguns pelos finos. Os pelos facilmente removíveis, mas a voz foi motivo de muita curiosidade e preocupação: “seu resfriado ainda não passou?”, “sempre achei que professores deviam ter acompanhamento fonoaudiólogo, falamos demais!”. Vi que esse corpo – de onde nasciam todas minhas utopias e que contra ele retornavam – já não era mais possível apagar. Foi aí que senti a necessidade de suspender minha atuação como docente para viver o processo mais tranquilamente. Esse foi um exercício de autoconhecimento, reelaboração de propósitos, ressemantização da vida (parafraseando Wagner Xavier de Camargo em “Tempo de parar”) . A Universidade , então, apresentou-se a mim de outra forma, como heterotopia. Uma porta de entrada para, seguindo a carreira acadêmica agora como doutorando, poder viver essa identidade outra e assumir esse corpo outro.

25

“Meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que jamais se encontra sob outro céu, lugar absoluto, pequeno fragmento de espaço com o qual, no sentido estrito, faço corpo.”

(Michel Foucault)

Julian Pegoraro Silvestrin

“Meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que jamais se encontra sob outro céu, lugar absoluto, pequeno fragmento de espaço com o qual, no sentido estrito, faço corpo.” (Michel Foucault)

A Universidade como heterotopia trans