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No processo de me constituir na identidade de gênero, pude vivenciar outro momento muito difícil na minha trajetória pessoal, a de ser travesti. Uma identidade historicamente atravessada pela visão social da marginalidade e da prostituição. Então comecei a perceber tudo isto, e compreender que em minha história de vida tiverammuitos atravessamentos, transitei por diferentes identidades. Hoje existo e resisto nesta identidade de gênero 24 horas, sou esta pessoa que me constituí e me reconheci nos limites e nas possibilidades de existências.
Houve um momento que a mídia deu visibilidade a identidade das travestis e transexuais, isso me possibilitou conhecer outras travestis em minha experiência de vida. Viajava com amigos para Florianópolis para ir às boates consideradas na época de gays, o que me levou a conhecer algumas travestis, que utilizavam de profissão do sexo como meio de subsistência. As travestis que tive a oportunidade de conhecer se prostituíam. Eu era uma das poucas que estudava e que lecionava. Relacionada a está questão era excluída pelas travestis profissionais do sexo. A concepção delas me colocava numa posição de diferença, isto demarcava minha condição de classe. A estética do corpo das travestis era construída por exigência do mercado de trabalho. E acabei aderindo a este modelo.
Na universidade houve um processo disso tudo que venho narrando. Não entendia muito a questão da identidade de gênero. Lembro-me de uma cena neste ambiente, na época ainda frequentava os banheiros masculinos. Estava no banheiro masculino me arrumando, um estudante entrou rapidamente saí sem entender. Estava no espelho me ajeitando, ele saiu rapidamente de dentro. Mas inconformado olhou para parte superior da entrada, e estava demarcado com a letra H, mesmo assim não entendeu nada e entrou novamente. Ironicamente disse para ele que se tratava de H de homossexual. Percebi que ainda era lida com a identidade de homossexual.
Assim, esta é aluta de resistência e existência para nós travestis e transexuais que não tivemos o privilégio de estar em um mundo que nos reconheça e nos visibilize. Muitas vezes precisamos caminhar solitárias a procura de nosso próprio “eu” para ocupar um lugar no mundo, mesmo que nos rejeitem e nos aprisionem.
Sou sim: “Mané mulher, mulherzinha e mariquinha”. Sou esta travesti que os outros rejeitam, mas que eu acolhi e abracei como minha própria identidade, como me reconheço e me afirmo. Posso não ser aquilo que os outros esperavam ou determinaram, mas sou aquilo que me constitui: ousada, subversiva, transgressora e humana. Minha humanidade é resultado da intolerância e do ódio de uma sociedade transfóbica.
Gabriela da Silva é professora efetiva da Rede de Ensino de Santa Catarina, modalidade EJA - Tubarão. Graduada: Licenciatura em Letras Português/Inglês - UNISUL - Campus Tubarão. Mestrado Educação UNISUL Campus Tubarão. Linha de Pesquisa: Relações Culturais e Histórias da Educação. Doutoranda no Programa de Pós Gardiação em Educação - UFSC . Linha de Pesquisa: Sujeitos, Processos Educativos e Docência (SUPED). Cofundadora do Núcleo de Pesquisa e Estudos de Travestilidades, Transgeneridades e Transexualidades (NeTrans).Membro do Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE).