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de escola que aos onze, doze anos já se afirmassem como travesti ou transexual. Até porque a escola, pedagogicamente, não discutia a possibilidade de reconhecer essas experiências. Ser quem sou,hoje, se constituiu de um trânsito, foram muitos os desafios para ser respeitada e conseguir meu espaço no mundo.
Ninguém me explicou na escola, na famíliaou meio de comunicação, o que seria a identidade de travesti ou transexual. Tive que me descobrir nas experiências cotidianas. Fui aprendendo a ser quem sou na vida, a vida é que me ensinou a ser quem sou. A aplicação de hormônio, aprendi entre os pares. Descobri com outra travesti quais hormônios poderia aplicar e que me trariam uma estética mais próxima do gênero feminino. Na época não havia ambulatório para tratamento de travestis e transexuais no sistema de saúde ou uma política de saúde LGBTT.
Desde minha entrada na quinta série até o ensino médio, passei a conviver com o rótulo e o estigma da homossexualidade. Alguns professores contribuíram para reforçar esta “imoralidade do meu corpo transgressor”. Estes me excluíam, as pessoas me excluíam como se não fosse um ser humano. Lembro-me que as orientadoras educacionais me chamavam para discutir o meu comportamento. Eles achavam que pelo processo de aconselhamentos poderiam mudar meu jeito de ser. Todos apontavam minha diferença, me rotulando de “viado” e “bicha”. Tudo porque não gostava da companhia dos meninos, sempre estava com as meninas, pois me sentia acolhida. Mas, mesmo assim, era excluída pela escola e pelos professores, especialmente pelos homens.
Acredito que em nenhum momento na escola houve diálogo sobre questões de sexualidade e gênero. Os diálogos que existiam eram para me disciplinar, para me convencerem a virar “homem de verdade”. Respeitar e reconhecer minha diferença nunca foi o propósito desta pedagógia da expulsão. Esse assuntonunca foi abordado na escola, nunca se comentou, até porque o contexto histórico era bem diferente, uma escola com uma prática militarista de mando e obediência.
Na escola tinha consciência de que alguns professores e estudantes se afastavam,com isto também me afastava, havia uma rejeição pela minha identidade transgressora. Ao mesmo tempo em que percebia que as pessoas me excluíam, o processo de me isolar era reforçado. Em vários momento no meu isolamento acreditava que a errada era eu. Hoje reconheço o fato de constituir-se numa educação conservadora, e os pais dos estudantes educavam seus filhos para serem conservadores. Com esta educação rígida e conservadora, as meninas consideradas comportadas não iriam querer estar com alguém que fugia das normas consideradas normais.
Meu modo de ser e de expressar meu gênero sempre foi motivo de conflitos em todos os lugares. Sentia-me sufocada em todos os momentos, fui sufocada para não ser quem realmente queria ser. Obrigaram-me a ser outra pessoa por muito tempo e não deixaram ter a liberdade de escolha. Isto afetou meu emocional e social, acredito que com menos conflitos existenciais poderia ter me construído numa pessoa muito melhor, trago as marcas das violências que sofri. Sentia que os professores sempre me tratavam de forma diferente em relação aos outros alunos.