Transitando por minha trajetória de vida e escolarização, afirmaria que “sofri muito”. Para minha experiência de gênero, a escola foi um ambiente disciplinador e normatizador. Iniciei meus estudos na 5ª série em 1977, no Colégio Estadual Senador Francisco Benjamin Gallotti, no município de Tubarão - Santa Catarina. Minha formação contava com as disciplinas obrigatórias de Organização Social e Política do Brasil, Educação Moral e Cívica, Ensino Religioso, Iniciação para o Trabalho e Ciências e Programa de Saúde.
Entretanto, ainda quando criança já expressava algumas características afeminadas, meu corpo performatizava, meus gestos e comportamentos eram considerados desviantes das normas. Por este fator, os olhares de vigilância, controle e disciplinamento procuravam me conformar às normas de sexo/gênero. Mesmo de forma implícita, reconheço que desde criança, a diferenças atravessaram minha existência, mas não sabia o porquê, nem quais eram estas “ditas diferenças”. A diferença, no meu caso, sempre foi sinônimo de desigualdades.
Porque quando vivemos numa matriz em que a cisheteronormatividade se constitui na única forma verdadeira de existir, tudo que foge as normas é considerado estranho, anormal ou desviante. Relutei por um longo tempo para afirmar minha sexualidade e identidade de gênero, por saber e já reconhecer que seria muito difícil enfrentar a sociedade e os olhares de reprovação, abjeção e julgamento.
Assim, na educação física os professores me obrigavam a jogar futebol, esportecom o qual não me identificava. Nesse sentido, era excluída das atividades e o professor em seu discurso pejorativo afirmava: “Mas então tu é viado”. Aqueles rótulos que comumente ainda aparecem na escola, com a finalidade de inferiorizar, julgar e demarcar as fronteiras. Por esta questão, durante um período até procurei negar minha identidade sexual e de gênero.
Porém, em certo momento,não resisti mais a tanta pressão e resolvi assumir quem eu era de fato, aquilo que os “ditos normais” afirmavam e reconheciam como um ser estranho, esta tal diferença produzidas pelos apelidos de mulherzinha e mané mulher. Então, me assumi como homossexual,, ou melhor, a identidade de “viado”. Convivi muito com gritos e xingamentos de “viado” nos corredores da escola e no caminho de volta para casa. Minha vida virou um inferno, um verdadeiro massacre existencial.
Mesmo assim, as dúvidas eram tantas, quem realmente eu era? Sentia-me perdida. Provavelmente, como todas as pessoas transgêneras da época, pois não tínhamos muitas referências e conhecimentos sobre identidade de gênero. Depois, imagina se reconhecer nas identidades de transexual ou travesti? É mais complicado ainda, porque você sente desejo de estar em um gênero que não é o de nascimento, e acaba percebendo que o mundo não foi construído para pensar nossa realidade. Na época, mesmo sem deter uma consciência reflexiva, sabia que meu sexo não definia meu gênero. Mesmo com as normas e disciplinamento escolar, o uso do uniforme que procurava homogeneizar, universalizar e afirmar que todos são iguais, sabia que não poderiam normatizar a possibilidade de você ser quem realmente é.
Não me lembro de ter encontrado colegas de escola que aos onze, doze anos já se afirmassem como travesti ou transexual.
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Gabriela da Silva
Traduzido por Alexandre Fernandez Vaz
Entre Existências e Resistências: O Mané-mulher... Mulherzinha... O Mariquinha da Escola