Contemporânea Contemporânea #9 | Page 27

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A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por exemplo, promulgou em 2012 a normativa nº 18/CUn, conhecida como Resolução do Nome Social, que dispõe do uso do nome social para pessoas transexuais e travestis para inscrição no vestibular e uso interno, visando incentivar a permanência ou o retorno de pessoas trans à instituição. Revisada e atualizada em 2015 – a partir de manifestações da comunidade trans da Universidade – resultou na Resolução Normativa 59/CUn/2015, “configurando-se como a mais completa resolução do nome social brasileira”3.

Obviamente que a UFSC não representa a realidade de todas as universidades brasileiras, mas quando falo da Academia como um espaço outro, parece-me mais interessante pensa-la como esse território que é possível ser ocupado como prática de liberdade e, ao invés de local de pensamento etéreo, de pensamento encarnado.

Durval Muniz de Albuquerque4 afirma que o escritor de O corpo utópico sonhava em ultrapassar seu corpo próprio, em ir além dos limites que suas carnes lhe impunham; e que tentou por meio de práticas de liberdade, construir distintos corpos, em algumas delas procurando transgredir os próprios limites das carnes e, portanto, das liberdades possíveis. Suas práticas de estimulação do corpo contra o controle-repressão se davam por meio do exercício da sexualidade, do uso de drogas, de exercícios físicos quando já doente. Foucault perseguia seus desejos filosoficamente e nas práticas cotidianas, de maneira que corpo e pensamento participem um da elaboração do outro. O pensamento se encarna, por isso os investimentos em construir um dado corpo; daí o investimento em pensar práticas que o libertem. Associo, assim, a possibilidade de escolha de passar pela transição de gênero durante o doutoramento ao cuidado de si (de mim) em termos foucaultianos, pois é por meio das práticas e técnicas de si que o sujeito se elabora e assume sua verdade, compromete-se eticamente.

Não sejamos ingênuos e ingênuas, a Academia não é um espaço pacífico e acessível a todas às pessoas e experiências, mas, levando em conta o papel das políticas públicas, fruto de muita luta dos movimentos sociais e da importância das primeiras pessoas trans ao ocupar esse espaço, portas foram abertas. Que a Universidade permaneça um espaço de diferentes universos, e então de subjetivação e lugar de fala trans, que conectado a outros espaços de onde falamos e atuamos, possa ser agente de transformação.

Embaralhando o corpo utópico e as heterotopias de Foucault às minhas, sou lembrado que graças ao espelho é que meu corpo não é pura e simples utopia. Nele, os espaços e caminhos se cruzam. A partir dele é que imagino, falo, avanço; “percebo as coisas em seu lugar e também as nego.”

1 Em sua coluna no site Ludopedio. Disponível em:https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/tempo-de-parar/. Acesso em: 10/01/2019.

2 Tratarei a partir daqui os termos universidade e academia como sinônimos.

3 ZANELA, Maria. Acesso a informação para construção da cidadania de mulheres transexuais e travestis: Resoluções do Nome Social como estratégia de inclusão. Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação, v. 14, n. 2, mai./ago. 2018.

4 Em As viagens e as viragens das carnes: o corpo como espaço de práticas de liberdade Ou Corporificando Michel Foucault. Fala proferida na Mesa 8 do XI Colóquio Internacional Michel Foucault, em Florianópolis, dia 27 de setembro de 2018. Disponível em: http://coloquiofoucault.sites.ufsc.br/videos-conferencias-e-mesas/