Tenho optado pela possibilidade de ora definir-me, ora não. Até porque às vezes o tempo que a gente vai ter para falar em um evento acadêmico é de no máximo quinze minutos antes que as plaquinhas comecem a subir informando que o seu tempo está esgotado. Às vezes se apresentar demora um pouco, às vezes nossas pautas são consumidas pelo tempo em que a gente se apresenta, pelo tempo que a gente justifica a nossa existência. Quantos caracteres será que eu ainda tenho?
A professora Megg Raynara Gomes de Oliveira (2018) diz que quando ela fala que é a primeira professora negra travesti do Brasil, fala com um ar de denúncia, e não de celebração. Toda vez que sou convidada para palestrar, que apresento um trabalho, que pego o microfone, toda vez que eu recito um poema, tem que ser em tom de denúncia. Esse é um dos motivos para eu sempre dizer que minha identidade é plural, mas que sou apenas uma entre tantas, que somos diversas, que não me tomem por um todo, por uma coletividade que, como diz Linn da Quebrada (2017), não tenho condições de representar e nem quero. Esse é um dos motivos pelos quais eu denuncio a nossa ausência em espaços de poder, denuncio o silêncio daqueles que se calam diante da nossa ausência e que nos calam na nossa presença. O tom de celebração para falar da nossa presença é um tom de problema resolvido: a diversidade chegou, nunca antes houve outra pessoa igual neste espaço. Nos apagaram! Como é ser negra e fazer um curso em que quase não aparecemos nas bibliografias? A professora responde que agora com a gente ali elas terão acesso ao que a gente trouxer. “A diversidade chegou”. Mas, espera um pouco... Nós já estivemos ali antes, onde estava a escuta? Onde está a escuta? Entrou por um lattes e saiu pelo outro. Nossa presença é exotizada com fogos de artifício em celebração, (quase) nunca em denúncia. Quem é? Como vive? O que come? Come, ou dá? Reticências. Mas você faz doutorado? Achei que era da graduação. “Eu me cansei das algemas que seus olhos / colocam no meu dia a dia” (Martins, 2016, p.355). A bixa preta transviada andando pela faculdade é com certeza das cênicas, é com certeza aluna de graduação... o problema não é o espaço em que eu posso ocupar, mas o espaço que ocupo na mente de quem insiste em me desumanizar. Pessoas negras não têm cara de doutoras para a alma colonizada, olhares colonizados não veem bixas pretas como pesquisadoras, pescoços coloniais se torcem para transviada andando pela universidade. Chega de surpresas! Eu já vi tanta preta doutora, tanta bixa preta pesquisadora, eu já vi travesti advogada, preto médico, travesti preta professora universitária eu já vi, eu já fui em um congresso nacional cheio de gente preta acadêmica... por que a surpresa ainda? Cansei. “Eu não quero rótulos que demarquem meu território/ Que limitem os campos de atuação do meu coração/ Não quero campos de concentração da minha alma” (Martins, 2016, p.355). Cansei de dizer que cansei. “Que futuro tem uma / conversa nasce-morta?” (N’Gana, 2018)
Sente na cama e com os pés no chão assista Mel em “O medo”:
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bibliografias? A professora responde que agora com a gente ali elas terão acesso ao que a gente trouxer. “A diversidade chegou”. Mas, espera um pouco... Nós já estivemos ali antes, onde estava a escuta? Onde está a escuta? Entrou por um lattes e saiu pelo outro. Nossa presença é exotizada com fogos de artifício em celebração, (quase) nunca em denúncia. Quem é? Como vive? O que come? Come, ou dá? Reticências. Mas você faz doutorado? Achei que era da graduação. “Eu me cansei das algemas que seus olhos / colocam no meu dia a dia” (Martins, 2016, p.355). A bixa preta transviada andando pela faculdade é com certeza das cênicas, é com certeza aluna de graduação... o problema não é o espaço em que eu posso ocupar, mas o espaço que ocupo na mente de quem insiste em me desumanizar. Pessoas negras não têm cara de doutoras para a alma colonizada, olhares colonizados não veem bixas pretas como pesquisadoras, pescoços coloniais se torcem para transviada andando pela universidade. Chega de surpresas! Eu já vi tanta preta doutora, tanta bixa preta pesquisadora, eu já vi travesti advogada, preto médico, travesti preta professora universitária eu já vi, eu já fui em um congresso nacional cheio de gente preta acadêmica... por que a surpresa ainda? Cansei. “Eu não quero rótulos que demarquem meu território/ Que limitem os campos de atuação do meu coração/ Não quero campos de concentração da minha alma” (Martins, 2016, p.355). Cansei de dizer que cansei. “Que futuro tem uma / conversa nasce-morta?” (N’Gana, 2018)
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