Contemporânea Contemporânea #9 | Page 19

Não faz muitos anos que eu me apresentei pela primeira vez ao mundo como a bixa preta transviada que sou. Há pouco tempo atrás eu estava aprendendo o que isso significava.

Ainda estou.

Pegue (ou improvise) um leque e assista o clipe You make me feel (Mighty Real) da Sylvester:

19

Bixas pretas do mundo, completem:

bixa preta _________

Um diálogo entre a literatura negra e a transviadagem de uma bixa preta

Feibriss

ao me descobrir pertencente de um quilombo queer quando me aqueerlombo – queerlombo assim como quilombo não é só pedaço de chão, é pertencimento cognitivo; queerquilombo é uma ligação mental é uma r/existência política. “Aqui habita a potência, um imenso fragmento de poder” (PALHANO, 2018).

Por estar no doutorado, é comum que eu participe de eventos e que eu seja apresentada ou precise me apresentar. Me apresentar passou a envolver muito mais questões. Dizer em voz alta em uma mesa parece que tem um peso maior, parece que é uma responsabilidade maior (talvez nem seja). Será que me apresentar como bixa preta transviada é suficiente? Será que essa denominação dá conta da minha subjetividade? Quando se é um corpo marcado, quando não se é um corpo branco-cis-hetero que pode apenas “ser”, que pode simplesmente existir sem r-, a gente precisa se apresentar para que não nos definam; ou pelo menos para que, se ainda insistirem em nos definir, nossas contra narrativas r/existam para conflitar com as definições não autorizadas. Voz nós sempre tivemos, queremos saber onde é que está a escuta atenta. “Ouça o que está sendo dito, e lembre-se de que não é uma acusação pessoal. Os negros não estão dizendo que é culpa sua. Só estão dizendo como é. [...] Um brinde as possibilidades de amizade, de elos e de compreensão.” (ADICHIE, 2013, p.355)

Essa identidade se ressignifica no meu corpo que é um corpo coletivo. Um corpo aquilombado. Nesse reconhecimento de uma identidade, uma coisa eu sei: o meu gênero é negro, eu não sou uma bixa, sou uma bixa preta; não por acúmulo de identidades, mas porque o meu gênero é (marcado pela) raça. Ser uma pessoa negra define a minha identidade de gênero, pois o gênero é percebido e expressado em corpos negros atravessados pelo racismo, curando cicatrizes coloniais que nunca foram fechadas. Porque ser uma pessoa negra é lutar contra a desumanização, é resistir sem poder somente existir. Resisto... re-existo... r(existo)... “Resisto aos furacões, às turbulências pessoas / as estradas de chão duro, intermináveis... / resisto porque preciso desesperadamente / EXISTIR!” (MARTINS, 2018).

Para falar em identidade de gênero e sexualidade, precisamos falar sobre como a humanidade é negada aos nossos corpos negros dentro do patriarcado capitalista imperialista da supremacia branca. Sou bixa preta transviada porque uma identidade bixa preta é uma identidade plural, somos muitas e somos diversas e é na transviadagem que eu me encontro,