Nattan Coutinho, friburguense e reside em Niterói - RJ, tem 18 anos, é estagiário e trabalha como modelo independente nas horas vagas, bicha preta que (r)existe dentro de um corpo plural e ativista dentro do movimento LGBTQ+ Negro. Conversamos com Nattan as demandas atuais da sociedade, em que ele nos mostra suas percepções sobre os movimentos e como passa por cima dos preconceitos e rótulos impostos pela sociedade.
Chalé12- A maioria dos lgbt percebem os primeiros sinais da sua sexualidade ainda na infância. Quando você percebeu que não se encaixava no padrão heteronormativo que a sociedade pedia? Que menino precisa gostar disso ou daquilo, fazer isso ou aquilo...Inicialmente, como você processou tudo isso?
Nattan Coutinho - Esse processo de se auto descobrir se auto reconhecer na verdade é bem difícil,sabe? É um processo que uns vão passar com mais intensidade e outros vão passar com menos. Mas eu não sei dizer ao certo quando foi que "Ah,eu descobri que eu era uma bicha" entendeu? Eu não vou saber te dizer ao certo, mas eu sempre percebi que eu era diferente de todo mundo, que eu gostava de coisas diferentes, que coisas diferentes me chamavam atenção e que me atraiam mais do que outras...E eu falo isso em relação de que homens me atraía mais do que mulheres, quando eu abria revistas de catálogo de loja que eu ficava lá meia hora só olhando os caras de cueca. Então foi durante esse processo de descobrir o mundo ,que eu comecei a saber quais eram os meus desejos da onde vinha os meus desejo pelos homens, sabe? E é onde eu tenho acesso a internet, que foi uma ferramenta que me fez me descobrir tipo assim quase 60%,sabe? Que é onde eu começo a descobrir como eu estimulava o prazer no meu corpo, o que me dava prazer ,sabe? Eu falo isso em relação ao que todo menino faz, que é a masturbação, o que você traz prazer pra você se masturbar . Então foi um processo difícil, porque ao mesmo tempo que eu sabia que aquilo era errado e eu tava praticando aquilo ,foi um processo confuso, que eu seguia a religião cristã,né? Eu era cristão praticante,eu ia pra igreja todos os dias e lá eu ensinado que aquilo era uma coisa ruim,que era uma coisa que eu não deveria fazer. Porém eu continuava fazendo ,então foi um processo ruim,difícil e que conforme o tempo eu fui desconstruindo ,desconstruindo e entrando em um grande processo de desconstrução pra poder chegar à bicha,ao ser,ao corpo plural como diria Linn da Quebrada.
Chalé12- Você citou a Linn da Quebrada . A Linn da Quebrada hoje é uma grande referência,né? Tanto no movimento LGBT quanto no movimento negro. Enquanto você estava nesse processo você tinha referência? Você tinha artistas do meio que você olhava e falava: " Cara,é Isso." ? Porque hoje a mídia "abriu espaço" pra alguns artistas LGBT pra alguns representantes da causa ,porém parte desses representantes são brancos , então como foi isso pra você? Tinha alguma referência ? Tinha alguma pessoa que você se inspirava ?
Nattan Coutinho- Não,eu não tive esse espelho que eu pudesse falar assim: "Nossa, eu quero ser igual a você porque nós somos iguais”. Entendeu? Eu não enxerguei nenhuma bicha preta que pudesse me dar esse apoio ou que eu pudesse me apoiar nela. A gente sabe que a mídia ela é racista, né? A mídia ela só que botar as pessoas pretas seja lá qual for o sexo, estereótipos ...E a gente tinha sim pessoas na televisão negras,lgbts mas que estavam lá estereotipadas que era a bucha preta pra fazer graça. Tínhamos a Mulher Lacraia,entre outros demais artistas. E eram pessoas que eu olhava e falava assim: "Nós somos iguais,mas a forma que estampam você na televisão não é uma coisa tão certa assim,sabe? porque estão ali pra você fazer graça, independente se você tá bem ou se você tá mal,vocês estão ali para fazer as pessoas rirem . E quando eu conheci o trabalho da Linn da Quebrada,o trabalho da Liniker e o trabalho de cantoras e cantores LGBT negros, eu já estava no meu processo de desconstrução avançado ,né? E é necessário sim uma referência de bicha preta,de travesti preta na mídia para que as pessoas consigam olhar. Porque quando você pega uma pessoa que ela é ali o seu igual LGBT, sabe o que eu passo sendo LGBT e sabe que eu passo sendo negro. Isso é muito importante ,muito importante mesmo. São pessoas que têm corpos plurais ,a plularidade dos corpos de ser lgbt e de ser negro consegue conversar ali com uma "facilidade",consegue identificar a dor do outro. Então eu não tive,porém acho muito necessário ,eu acho que a gente não alcançou isso ...Eu acho que a representatividade LGBT ela só vai estar cem por cento ali presente quando entrar LGBT preta ,quando entrar uma travestis preta,uma drag queen preta pra ficar no auge. E a gente tá muito longe disso acontecer.
C12 - Referente ao que você viveu e o que você passou,você sente que perdeu algumas coisas? Algumas oportunidades digamos,por fazer parte desses dois grupos? Por fazer parte do movimento LGBT,por fazer parte do movimento negro . Você sente isso? Pesou muito na sua vida? NC - Eu acho que isso se torna mais pesado pra mim no primeiro ano do ensino médio,onde eu estou totalmente incluso dentro de ambos os móvito talmente incluso dentro de ambos os movimentos e eu fazia parte de uma turma que era totalmente homofobica é totalmente racista. Então qualquer oportunidade que eu via de tá ali falando,abordando o assunto...Seja em trabalho,seja em redação eu tava ali, não pra afrontar mas pra por aquele assunto em discussão e tentar dialogar. Mas nós sabemos que pra dialogar não é uma coisa tão fácil e as pessoas que estavam ali para dialogar também estavam ali para me agredir com palavras; então eu acho que sofri mais nessa parte envolvendo o movimento aonde meu ativismo ali...Eu precisava ser mais forte do que meu ativismo porque era afrontos de todos os lado e eu também não baixava a cabeça,porque eu vi necessidade não de impor ,mas de dizer que aquilo ali tava errado ,que aquela brincadeirinha tava de conotação sexual e de conotação racista estavam passando ali dos limites. E eu acabei perdendo amigos por piadinhas,por discursos racistas e homofobicos e as pessoas não queriam por a mão na consciência e ver que aquilo estava errado,né? Ou pelo menos fingir que aquilo estava errado; então foi quando eu comecei a excluir pessoas assim,eu não vi necessidade...As pessoas acabaram se tornando pra mim pessoas de enérgias negativas . Pessoas que não estavam ali por mim e pra mim,entendeu? Então eu resolvi excluir.
C12 - E na sua opinião o que leva as pessoas a agirem dessa forma? É a falta de empatia com o próximo,falta de reconhecer o próprio privilégio na sociedade,falta de informação ou porquê as pessoas são assim mesmo,criadas na base da ignorância?
NC - Falta de querer informação. Porque informação a gente tem aí,as pessoas vão se informarem a medida de que sentirem vontade,ou de que quiserem descobrir e entender ou procurar entender o próximo. Falta de respeito também é uma delas;mas a falta de informação ,a falta da vontade de querer se informar na verdade é a que reina. As pessoas a partir do momento que elas não têm informação suficiente ,a partir do momento que elas não tem o respeito elas não conseguem viver em sociedade. Não consegue manter uma sociedade igualitária,uma sociedade justa,uma sociedade onde as pessoas consigam viver se sentindo seguras e não ao ponto de se sentirem com medo de sair na rua e ser agredido pelo simples fato de ser negro,ou pelo simples fato de ser LGBT,ou pelo simples fato de ser mulher . Então é simplesmente a falta de querer se informar e a falta de respeito.
C12 - Você faz alguns trabalhos como modelo,né isso? Eu pude perceber que em alguns dos seus ensaios e como você comentou mais acima,que você usa algumas roupas e acessórios de acordo com o que você está sentindo naquele momento. E em muitos desses ensaio você usa roupas que são ditas como femininas;você lembra a primeira vez que você colocou essas roupas no seu corpo,a sua primeira experiência assim?
NC - Olha,a primeira vez que isso aconteceu, quando eu me vesti com roupas ditamente femininas eu estava com público à minha volta. Foi pra um ensaio de um brechó de uma amiga minha chamado "Brechó da Ari" ,e onde eu botei um vestido botei um salto e foi uma coisa totalmente surreal. Quando eu olhei assim e vi a forma à qual eu estava vestido eu fiquei tipo :"Meu Deus,isso é incrível!" . É uma sensação incrível,é um ar não de liberdade,mas de conforto. Eu me senti confortável ali naquele momento porque eu estava querendo usar aquilo naquele momento,mas ao mesmo tempo eu tive medo porque era um ensaio em que as fotos iriam para a internet,né? E aí eu tinha receio do que minha mãe iria achar se me visse daquele jeito,do que as pessoas iriam achar ali. É o primeiro contato, por mais desconstruido que eu fosse por mais tempo de militância que eu já tivesse, acho que sempre vai existir o medinho de ao sair na rua e fazer um ensaio fotográfico ,do que as pessoas vão achar até mesmo na internet. O que as pessoas vão achar e o que as pessoas vão falar. Mas a sensação é única ,vestir roupas ditamente femininas é megante confortável porque roupa se mulher é confortável !
C12 - Você citou sua família, você recebeu o suporte que você esperava quando contou pra ele sobre sua sexualidade ? Ou foi meio atribulado?
NC - Não. No caso a minha mãe que é o maior ícone materno e paterno presente ela sempre deixou claro que nunca iria aceitar e muito menos respeitar a minha sexualidade. Foi um pouco difícil...Foi muito difícil,não foi “um pouco” não . Foram anos e anos caminhando com o mesmo discurso,e eu ali caminhando naquela mesma indecisão em se eu devia mesmo contar pra ela quem eu realmente sou ou se eu deixava ela somente o pré-conceito dela sobre a minha pessoa. Mas eu resolvi contar pra ela,que inclusive não tem muito tempo! Acho que já fazem duas semanas que eu contei pra ela e até então ela nunca mais tocou no assunto. Mas foi aquilo,ela sempre repreendendo tudo que tem haver com minha sexualidade...Inclusive seja lá qual área for da minha vida se tiver incluindo algo da minha sexualidade na verdade da minha homossexualidade única ,vestir roupas ditamente femininas é megante confortável porque roupa se mulher é confortável !
C12 - Você citou sua família, você recebeu o suporte que você esperava quando contou pra ele sobre sua sexualidade? Ou foi meio atribulado?
NC - Não. No caso a minha mãe que é o maior ícone materno e paterno presente ela sempre deixou claro que nunca iria aceitar e muito menos respeitar a minha sexualidade. Foi um pouco difícil...Foi muito difícil,não foi “um pouco” não . Foram anos e anos caminhando com o mesmo discurso,e eu ali caminhando naquela mesma indecisão em se eu devia mesmo contar pra ela quem eu realmente sou ou se eu deixava ela somente o pré-conceito dela sobre a minha pessoa. Mas eu resolvi contar pra ela,que inclusive não tem muito tempo! Acho que já fazem duas semanas que eu contei pra ela e até então ela nunca mais tocou no assunto. Mas foi aquilo,ela sempre repreendendo tudo que tem haver com minha sexualidade...Inclusive seja lá qual área for da minha vida se tiver incluindo algo da minha sexualidade na verdade da minha homossexualidade ,ela já logo... Ela vê isso como algo negativo e foi assim desde muito tempo.Desde quando me vi lá aquela criança viada que era repreendida pela mãe por andar com meninas,por ter trejeitos femininos. Mas resisti ,tô resistindo ainda e é isso.
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