Temos alguns problemas relacionados a aplicação dessa lei. O primeiro é a resistência das unidades escolares para implantar a disciplina ou um momento adequado em alguma disciplina para esse conhecimento. O argumento mais utilizado é que os professores não se formam com o domínio dessa disciplina, o que em algum grau é verdade, mas não justifica. A UFBA, por exemplo, tem feito alguns esforços para oferecer a disciplina em seus cursos de licenciatura, o que já ajuda a suprir essa demanda, mas ainda vemos muitos casos em que professores utilizam esse espaço para reforçar estereótipos e alimentar essa cultura do ódio nas escolas. Acredito que valorização não é folclorizar nossa cultura através de apresentações em gincanas e feiras temáticas sem que aja um debate sobre como vivemos as culturas afro-brasileiras no nosso cotidiano. É até mesmo ampliar esse conceito de cultura, sair do lugar da comida típica, roupa típica, música típica, porque tudo que é típico, nesse contexto, reduz as nossas experiências a um lugar que não ajuda a vencer essas intolerâncias.
- O que você acha de toda a discussão acerca da apropriação cultural?
Geralmente esse tema vem à tona quando uma pessoa branca usa turbante ou trança, pelas vezes que me lembro. Percebo que o debate fica muito em torno de ser ou não ser apropriação cultural, mas poucos discutem porque reivindicamos isso. Eu uso dreads, e as pessoas na rua fazem uma pré-leitura a meu respeito, inclusive me associando a um monte de imagens mentais que elas têm. Os mesmos dreads em pessoas brancas são lidos de outra forma. Então o turbante e as tranças só são vistos como bonitos e aceitáveis quando estão em cabeças brancas, enquanto questionam o nosso uso que é legítimo e ancestral. Acho que apropriação cultural é mais sobre isso do que sobre querer exclusividade para usar as coisas. Parece ser uma discussão fútil por se tratar de um fator estético, mas diz respeito à negação de direitos, e isso é sério, não pode ser negligenciado, não pode ser tratado como mimimi. Então eu vejo como um problema esses usos “autorizados” quando nós, que somos “herdeiros” dessa história, não podemos usar nosso turbante sem que alguém olhe torto ou diga expressamente que não pode.