Chalé12 Magazine 1 | Page 27

percebi que eu era diferente de todo mundo, que eu gostava de coisas diferentes, que coisas diferentes me chamavam atenção e que me atraiam mais do que outras...E eu falo isso em relação de que homens me atraía mais do que mulheres, quando eu abria revistas de catálogo de loja que eu ficava lá meia hora só olhando os caras de cueca. Então foi durante esse processo de descobrir o mundo ,que eu comecei a saber quais eram os meus desejos da onde vinha os meus desejo pelos homens. E é onde eu tenho acesso a internet, que foi uma ferramenta que me fez me descobrir tipo assim quase 60%,sabe? Que é onde eu começo a descobrir como eu estimulava o prazer no meu corpo, o que me dava prazer ,sabe? Eu falo isso em relação ao que todo menino faz, que é a masturbação, o que você traz prazer pra você se masturbar . Então foi um processo difícil, porque ao mesmo tempo que eu sabia que aquilo era errado e eu tava praticando aquilo ,foi um processo confuso, que eu seguia a religião cristã,né? Eu era cristão praticante,eu ia pra igreja todos os dias e lá eu era ensinado que aquilo era uma coisa ruim,que era uma coisa que eu não deveria fazer. Porém eu continuava fazendo ,então foi um processo ruim,difícil e que conforme o tempo eu fui desconstruindo ,desconstruindo e entrando em um grande processo de desconstrução pra poder chegar à bicha,ao ser,ao corpo plural como diria Linn da Quebrada.

Chalé12- Você citou a Linn da Quebrada . A Linn da Quebrada hoje é uma grande referência,né? Tanto no movimento LGBT quanto no movimento negro. Enquanto você estava nesse processo você tinha referência? Você tinha artistas do meio que você olhava e falava: " Cara,é Isso." ? Porque hoje a mídia "abriu espaço" pra alguns artistas LGBT pra alguns representantes da causa ,porém parte desses representantes são brancos , então como foi isso pra você? Tinha alguma referência ? Tinha alguma pessoa que você se inspirava ?

Nattan Coutinho- Não,eu não tive esse espelho que eu pudesse falar assim: "Nossa, eu quero ser igual a você porque nós somos iguais”. Entendeu? Eu não enxerguei nenhuma bicha preta que pudesse me dar esse apoio ou que eu pudesse me apoiar nela. A gente sabe que a mídia ela é racista, né? A mídia ela só que botar as pessoas pretas seja lá qual for o sexo, estereótipos ...E a gente tinha sim pessoas na televisão negras,lgbts mas que estavam lá estereotipadas que era a bicha preta pra fazer graça. Tínhamos a Mulher

falava assim: "Nós somos iguais,mas a forma que estampam você na televisão não é uma coisa tão certa assim,sabe? porque estão ali pra você fazer graça, independente se você tá bem ou se você tá mal,vocês estão ali para fazer as pessoas rirem . E quando eu conheci o trabalho da Linn da Quebrada,o trabalho da Liniker e o trabalho de cantoras e cantores LGBT negros, eu já estava no meu processo de desconstrução avançado ,né? E é necessário sim uma referência de bicha preta,de travesti preta na mídia para que as pessoas consigam olhar. Porque quando você pega uma pessoa que ela é ali o seu igual LGBT, sabe o que eu passo sendo LGBT e sabe que eu passo sendo negro. Isso é muito importante ,muito importante mesmo. São pessoas que têm corpos plurais ,a plularidade dos corpos de ser lgbt e de ser negro consegue conversar ali com uma "facilidade",consegue identificar a dor do outro. Então eu não tive,porém acho muito necessário ,eu acho que a gente não alcançou isso ...Eu acho que a representatividade LGBT ela só vai estar cem por cento ali presente quando entrar LGBT preta ,quando entrar uma travestis preta,uma drag queen preta pra ficar no auge. E a gente tá muito longe disso acontecer.

C12 - Referente ao que você viveu e o que você passou,você sente que perdeu algumas coisas? Algumas oportunidades digamos,por fazer parte desses dois grupos? Por fazer parte do movimento LGBT,por fazer parte do movimento negro . Você sente isso? Pesou muito na sua vida? NC - Eu acho que isso se torna mais pesado pra mim no primeiro ano do ensino médio,onde eu estou totalmente incluso dentro de ambos os móvito talmente incluso dentro de ambos os movimentos e eu fazia parte de uma turma que era totalmente homofobica é totalmente racista. Então qualquer oportunidade que eu via de tá ali falando,abordando o assunto...Seja em trabalho,seja em redação eu tava ali, não pra afrontar mas pra por aquele assunto em discussão e tentar dialogar. Mas nós sabemos que pra dialogar não é uma coisa tão fácil e as pessoas que estavam ali para dialogar também estavam ali para me agredir com palavras; então eu acho que sofri mais nessa parte envolvendo o movimento aonde meu ativismo ali...Eu precisava ser mais forte do que meu ativismo porque era afrontos de todos os lado e eu também não baixava a cabeça,porque eu vi necessidade não de impor ,mas de dizer que aquilo ali tava errado ,que aquela brincadeirinha tava de conotação sexual e de conotação racista estavam passando ali dos limites. E eu acabei perdendo amigos por piadinhas,por discursos racistas e homofobicos e as pessoas não queriam por a mão na consciência e ver que aquilo estava errado,né? Ou pelo menos fingir que aquilo estava errado; então foi quando eu comecei a excluir pessoas assim,eu não vi necessidade...As pessoas acabaram se tornando pra mim pessoas de enérgias negativas . Pessoas que não estavam ali por mim e pra mim,entendeu? Então eu resolvi excluir.

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