no mundo inteiro) nunca tinha me ocorrido que eu era negra.
Desde então, comecei a entender que ser negra no Brasil é algo que eu precisava me posicionar. Eu tinha que está pronta para enfrentar racismo, preconceito e a discriminação. O que é contraditório num país onde metade da população se declara negra. Logo depois de alguns meses entendi o porquê de ser seguida pela segurança de mercado, da indiferença de atendimento, das frases cruéis de como eu não merecia estar estudando porque estava “roubando vagas de brasileiros”. Nestes momento questiono a mim mesmo, a minha cor de pele, a minha vinda para o Brasil e a crueldade que existia nele.
Desde então, decidi criar meios de lidar com a situação, de obter respostas e de ouvir as experiências de outras pessoas, e nesta convivência, buscar formas de desconstruir essa imagem do ser africano, de mudar o olhar de ‘desconfiança’, de ‘pena’ e de ‘estereótipo’ que as pessoas no Brasil possuem. Hoje, consigo trabalhar isso através do espaço me proporcionado na Universidade Estadual de Ponta Grossa, UEPG, através de projetos como Letramento Acadêmico em parceria com Núcleo de Relações Étnico-Raciais de Gênero e Sexualidade (NUREGS), e do Programa de Mestrado em Estudos da Linguagem.
As minhas experiências no Brasil como africana e estrangeira têm me proporcionado uma realidade diferente, cheia de oportunidades, desafios, conquistas e aprendizagens. Vir para o país é e tem sido uma aventura interessante que provoca em mim outras maneiras de olhar para o mundo. Ao falar que existe uma imagem do que significa ser africano também tem a noção do que é morar no Brasil. Antes de viajar as minhas únicas referencias eram o time brasileiro de futebol e o Carnaval.
Durante as aulas de português aprendi mais um pouco sobre a cultura brasileira. Os lugares sobre quais aprendi eram São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador Bahia. Sobre como as pessoas são simpáticas e acolhedoras em saber que no Sul as pessoas são bem diferentes. Isso é bem interessante pois moro em Ponta Grossa e as pessoas são reservadas.
Iniciei os estudos na Universidade Estadual de Ponta Grossa em 2011 para cursar Jornalismo e não levou nada mais que poucos dias para perceber as diferenças culturais e sociais. As consequências de possuir somente uma única história sobre brasileiros dificultaram a aceitação da realidade em que me encontrei. Ao longo dos anos, tive que passar por um processo de desconstrução e reconstrução da imagem do Brasil e da minha própria identidade.
Nas primeiras semanas recebi muitos olhares enquanto alguns ousavam fazer perguntas. O processo de adaptação foi árduo e durou em torno de dois anos para pelo menos me desprender de tudo que eu achava que sabia da cidade, fazer algumas amizades, saber me virar e principalmente entender que a minha cor de pele era algo que ia me causar certas dificuldades.
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