(Re)negociação, desconstrução, construção, são palavras que descrevem a minha trajetória como uma estudante nigeriana que veio a se reconhecer como africana no Brasil. É um processo que se iniciou em 2011 desde a minha chegada no Brasil desde as dificuldades, o choque cultural, a descoberta de novos costumes, a culinária até a questão racial. É o desenvolvimento de identidades em negociação do que é ser mulher, africana, estrangeira e estudante. Posições conflitantes que escapam qualquer forma de definição.
Interessante que o ser africana de pele negra muitas vezes assombra todas as outras formas indenitárias porque quando alguém olha para mim a primeira coisa que enxerga é a cor da minha pele e antes de ter a chance de ser outra coisa já me posiciona baseada na cor. Um exemplo desse sendo a experiência que passei num banco. Ao ser atendida, o recepcionista deu uma olhada rápida para mim e pelo resto do atendimento seus olhos nunca mais saíram do computador. Pediu minha carteirinha e entreguei o da faculdade que era a única que estava comigo. Ao ler ‘estudante de mestrado’ levantou os olhos e sorriu para mim. De lá o atendimento seguiu um rumo mais ‘amigável’.
Situações como esta e muitas outras giram em torno das minhas experiências como negra no Brasil. Ser estudante e estrangeira é tirar nota alta numa prova e meus colegas acharem ‘bom demais’, nas palavras de uma aluna “a Jane tirou oito igual a gente”. E o ser mulher negra? Não devo nem dizer. O que estou tentando dizer é que me reconhecer como africana no Brasil não foi algo que eu planejei, simplesmente me tornei sensível e perceptível a situações que são provocadas pela minha negritude. Digo isso porque como nigeriana (o país com a maior número de negros no mundo inteiro) nunca tinha me ocorrido que eu era negra.
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Temitope Jane Aransiola