Caderno de Resumo do III SIICS Caderno de Resumos do III SIICS | Page 453

Página | 453 quem o assiste. A mãe Catirina não basta aparecer grávida, tem que com seus gestos parecer uma grávida feliz e sempre desejosa de comer língua de boi e dividir o espetáculo com Chico que também traz a vida seu personagem. O boi consiste numa armação de madeira em forma de touro, coberta de veludo enfeitado de paetês, canutilhos, bordados com ilustrações de santos e o nome do grupo. Prende-se, à armação, uma saia de tecido colorido, ou saiote, onde fica a pessoa que conduz o bailado do boi- o miolo do boi. O boi é o rei da festa, mesmo que algumas vezes esquecido e falte até espaço para sua apresentação/evolução, ainda reina. Os personagens do boi, que dão vida e conta a história - auto do bumba-meu-boi, também, chamado popularmente de lenda de Catirina, usam seus corpos para da forma e vida. Assim, através figurinos ou indumentárias os atores populares através de gestos, olhares, posturas caricaturas expressam sentimentos, geralmente de alegria ao se apresentarem, ocorrendo uma leitura da realidade, já que todo esse teatro, os personagens fazem parte do imaginário do maranhense. Nas apresentações é fácil identificar os personagens Catirina e pai Francisco, com suas roupas coloridas, gestos exagerados e engraçados, às vezes entram mascaradas, alguns grupos ainda o papel feminino é realizado pelo homem, pois outrora não era permitido a mulheres brincar no boi, no máximo acompanhar marido, filhos, pai e servir água e todo outro tipo de ajuda, uma espécie de “mutuca”, nome pelo qual ainda hoje se conhece as pessoas que seguem os grupos de bois e os auxiliam. Entretanto, as mulheres estão ocupando a diretoria e personagens. Com o passar dos anos, a renovação da sociedade, crianças e mulheres vem adquirindo um espaço nas brincadeiras populares maranhenses, sobre tudo o boi, que era um lugar masculino. A forma como a comunidade se ajuda a colocar o boi na rua, prepara a festa, as famílias que brincam no bumba-meu-boi e de como toda essa sociabilidade e signos corroboram para a continuação do fazer o boi, o envolvimento de muitos atores sociais, sua circulação entre o sujeito e o simbólico. O individualismo moderno, metropolitano, não exclui, por conseguinte, a vivência e o englobamento por unidades abrangentes e experiências comunitárias. Permite e sustenta maiores possibilidades de trânsito e circulação, não só em termos sociológicos, mas entre dimensões e esferas simbólicas. (VELHO, 2013, p.27). O corpo do brincante serve como linguagem que expressa o pensar, encarna o personagem e seu sentir, denotando identidades construídas e que são evocadas como, por exemplo, nos festejos juninos, com o boi. Desta forma, os participantes adquirem e produzem saberes que configuram a cultura popular local. A cidade de São Luís, capital que vem crescendo em termos de instalação de empresas, população, prédios e tudo que tange a uma cidade urbana/industrial, ainda preserva e traz consigo a cultura popular afro indígena em confluência com seu tempo, portanto a continuidade e as transformações convivendo e as manifestações culturais constituindo um elo entre esses mundos, como afirma VELHO (2003,p.27) assim, na sociedade complexa, particularmente, a coexistência de diferentes mundos constitui a sua própria dinâmica. A construção de uma manifestação cultural como sendo um bumba-meu-boi suas variedades de sotaques e gestuais dá-se não apenas pelo movimento, cadenciados ou mesmo coreografados, mas por um conjunto de elementos que o constituem, a exemplo dos personagens índias, índios, caboclo de pena ou real, mãe Catirina, cazumbá, vaqueiros e sobre tudo o miolo do boi que fica escondido, embaixo da carcaça enfeitada, bordada com seu saiote ou barra do boi toda essa composição esta carregada de expressão simbólica, que é traduzidas nos corpos que encenam seus personagem e dão vida a cultura popular. Quero chamar atenção ao corpo do miolo, mas uma vez, responsável em dá vida ao boi, a ressuscita-lo a cada apresentação, a girar e fazer gestos que acompanha o seu grupo e todo o enredo da história através de suas toadas (músicas). O corpo deste brincante fica encoberto às vezes imperceptível ao olhar do público que chama “vem cá boi” e ele vai e posa para fotos ou para alegria principalmente das crianças. O miolo e o boi se confundem e fundem-se, seus corpos (homem e carcaça) bailam em um só ritmo. Quando assistimos uma apresentação de bumba-meu-boi, mesmo não conhecendo os sotaques que os define e diferencia, perceberam as expressões no rosto, os gestos, o cantar, sorrisos, e coreografias que mostram que o gestual popular é delineado, relacionado à produção histórico- cultural da comunidade. O boi representa o seu lugar, território e gerador de capital. Um