Caderno de Resumo do III SIICS Caderno de Resumos do III SIICS | Page 452

Página | 452 O CORPO FALA: A LINGUAGEM CORPORAL DOS BRINCANTES NO BUMBA- MEU-BOI DO MARANHÃO Fábia Holanda de Brito (Doutoranda) fabiaholanda27@gmail.com Ana Luiza de Carvalho Rocha (Orientadora) UNIVERSIDADE FEEVALE/RS miriabilis@gmail.com RESUMO: Este trabalho traz no seu bojo os brincantes de bumba-meu-boi sob o olhar de seus corpos que dão vida aos personagens do auto do boi e como interagem no cotidiano de suas vidas com a cultura popular local. A manifestação cultural do bumba-meu-boi é uma mistura de teatro, ritual, religiosidade e festa. É considerado uma das principais manifestações da cultura popular, constituindo parte da identidade maranhense. Não se tem registro de uma data exata para o seu surgimento, mas sabe-se que está ligado ao ciclo do gado, por volta do século XVIII. Recebe outros nomes de acordo com a localidade, caso do Maranhão de bumba-meu- boi ou bumba-boi ou somente boi. Os seus participantes são conhecidos como brincantes. Ao longo da história, em cada localidade em que o boi aparece ganha características próprias, o que ocorreu também no Maranhão, surgindo assim classificações de ritmos, coreografias, estilos e característico afro indígena, denominados, sotaques (zabumba, matraca ou da ilha, pandeirões ou Baixada, costa de mão, orquestra e alternativos), toda via nem sempre os grupos se auto reconhecem com esta classificação. Durante os festejos juninos indivíduos de todas as idades usam seus corpos para (re) viver lenda de Catirina e outros personagens, nascendo assim o auto do bumba-meu-boi. Como pesquisadora e brincante de bumba-meu-boi, há 27 anos, posso afirmar que, o meu corpo se transfigura para a personagem vaqueira e como meus gestos ao segurar o maracá, ao cumprimentar o público com um leve aceno do chapéu bordado cheio de canutilhos me dão uma sensação de realmente lidar com a atmosfera da história teatral, dançar, brincar até que o boi ferido e morto ressuscite a cada apresentação. Trago como objetivo constatar que os corpos/sujeitos/brincantes de bumba-meu-boi dão vida ao teatro popular vivenciando personagens, figurinos, gestos, imaginários que dão sentido e continuação à cultura popular maranhense. Esta vida tem início muito antes da etapa ensaio, onde ideias, personagens, toadas e tudo mais vão ganhando vida. Os brincantes no decorrer dos ensaios vão moldando os seus personagens, sejam eles pessoas ou animal, caso do boi, burrinha, cazumbá e outros que fazem parte do enredo. O encenar e/ou a representação cômica existente na festa do boi é denominada de auto. Remete-nos ao roteiro básico, à história original ou à história tradicional. Auto do bumba-meu-boi é a nomenclatura utilizada nas principais referências (AZEVEDO, 1997; CARVALHO, 1995; LIMA, 2003; MARQUES, 1999) existentes sobre o bumba-meu- boi no Maranhão. O enredo da brincadeira refere-se um casal de pessoas simples, onde um ato praticado contra um animal – o boi, mudará suas vidas e iniciará um ritual de cunho popular, tornando-se bem imaterial da cultura brasileira (2011) – o bumba-meu-boi. Para entendermos este teatro popular, resumidamente contarei à lenda que tem suas versões, mas basicamente envolve de Catirina, esposa, negra e mãe e pai Francisco ou Chico marido, negro e futuro pai. Catirina, grávida, sente o desejo de comer a língua do boi mais bonito do patrão, o touro premiado. Pai Francisco atende o desejo, mata o boi e corta a língua para saciar o desejo da esposa. O senhor fazendeiro, fica enfurecido e promete se vingar, a não ser que consigam ressuscitar o boi. Isto ocorre depois de uma saga com a ajuda dos pajés e curandeiros que invocam os espíritos da floresta e finalmente o boi revive. Com o personagem definido o brincante ensaiará os gestos, posição, molejo do corpo, as paradas dentro da música ou quando a mesma termina de uma forma coreografada ou espontânea. O público e o próprio brincante tem que acreditar no personagem, tem que ter vida e fazer sentido para quem o interpreta e