C U V E T E 2017 | Page 52

Ao longo do documentário vemos confrontarem-se dois tempos o passado e o futuro, por vezes isolados, mas também não raras vezes entrelaçados em curiosas cenas de uma realidade em que ambos se parecem sobrepor tranquilamente. Este diálogo entre o moderno e o tradicional foi algo casual ou foi uma procura propositada?

Foi intencional! Eu procurei do norte ao sul do país por uma aldeia dinâmica e que não fosse apenas “o velhinho e o burrinho”. Não tenho nenhum estudo que sustente o que vou afirmar mas eu acredito que os portugueses têm uma ideia errada do interior do nosso país.

É um facto que há aldeias paradas no tempo, que estão desabitadas ou que apenas “o velhinho e o burrinho” habitam mas são poucas em relação às outras aldeias. Os portugueses têm que descobrir os recantos do interior do nosso país!

É também interessante a ausência de veículos, e particularmente quando a determinado momento vemos numa cena surgir ao fundo, por detrás da aldeia, o que parecem as placas de uma via rápida encher a paisagem. Porquê esta ausência?

Eu revi algumas vezes o filme e não encontro nenhum plano com “as placas de uma via rápida encher a paisagem”. Mas, há um plano de exterior de uma casa com chuva e o que surge ao fundo é um painel solar. A ausência de veículos como, por exemplo, a ausência da missa, é que, na minha opinião, não traziam nada de novo para o filme. E, como se costuma dizer na aldeia de Alfaião, o trânsito numa aldeia é quando um rebanho está na estrada e este pormenor está retratado no filme.

Sendo o Alfaião um retrato da aldeia até que ponto foi desejada uma imparcialidade jornalística e até que ponto foi criada uma parcialidade artística, seja com um intuito estético, ideológico ou social?

Não há uma imparcialidade ou parcialidade jornalística porque Alfaião é um filme e não uma reportagem. Há diferenças entre estes dois géneros e o único aspeto em comum entre o documentário e a reportagem é que nenhum é a verdade pura porque ambos são verdades contada através de alguém.