Boletim Astronomico KAPPA CRUCIS No. 1 Primavera 2017
Mas nesse tempo todo, enquanto Jim tenta sobreviver, ele é obrigado a procurar recursos, explorando e estudando a nave. E ele tem muito tempo para isso. É nesse momento que passamos juntamente com ele, que a história nos permite conhecer mais sobre o quão extraordinário é Avalon, com espaços incríveis e uma tecnologia fascinante. E corresponde a uma tecnologia totalmente plausível, sem nenhuma mágica.
A solidão de Jim numa nave ou no espaço é um tema bastante explorado pela ficção científica. Ele chegou a planejar um suicídio diante de sua situação, que em alguns momentos se mostrava desesperadora. A espécie humana vive em bandos ou comunidades, e o homem nunca foi adepto a viver solitariamente. Mesmo as exceções que conhecemos por aí, não são exatamente exemplos de uma solidão real, completa. Podemos nos afastar de tudo e morar no campo, no Alaska, na Sibéria, na floresta, mas a humanidade está logo ali, no mesmo planeta.
Mas concomitante a isso, percebemos que a humanidade nessa realidade futurista ainda se organiza numa sociedade capitalista, em que uma minoria vive com privilégios e mais acessos que a maioria, formada de trabalhadores, explorados e que são alijados de usufruir a mesma vida. As alas de passageiros são discriminadas por funções e classes sociais. Jim por exemplo, um engenheiro, com aparência de um mecânico simples, faz parte dos passageiros que iriam para Homestead II para serem trabalhadores, construindo e mantendo o novo mundo para
uma classe rica ou de intelectuais, que estavam separados em outras alas. Os privilegiados tinhas apartamentos muito melhores, mais direitos de usufruir o que a nave proporcionava, incluindo uma alimentação melhor e mais diversificada, além de ter direito a uma maior quantidade de coisas, algumas básicas e até essenciais sob alguns aspectos. Aos da ala dos trabalhadores estava destinado o básico para se manterem alimentados e acomodados, sem nenhum luxo ou privilégio, e até com condições precárias para algumas situações. Eles são discriminados por pulseiras simples e pulseiras vips. O filme, em algumas cenas até realça essas diferenças, talvez numa crítica velada ou simplesmente, o que é pior, um reflexo da falsa naturalidade das diferenças sociais do mundo real e atual em que vivemos. Nesse caso uma
Arthur o " bardroid "
banalização dessas diferenças, como se fossem normais, naturais e devêssemos aceitar em silêncio, pois criticar a ordem ou se colocar e lutar contra seria basicamente uma subversão dessa suposta“ ordem natural”. Uma micro sociedade de classes. Indo para um novo mundo. Mas no fundo, mais do mesmo de seu
54 velho mundo. Enfim... Jim, um excelente engenheiro, encontra maneiras de burlar a nave e usufruir de luxos não permitidos à sua“ classe econômica”.
Jim, em suas andanças solitárias pela nave passa a conhecer muita coisa de Avalon e das pessoas hibernando nas alas dos passageiros, ao ler e assistir os perfis pessoais descritivos ao lado das cabines ou compartimentos de hibernação. E numa dessas alas, destinadas às pessoas mais ricas, ele“ conhece” Aurora Lane( interpreta por Jennifer Lawrence). Ela fora na Terra uma jornalista e escritora muito famosa e muito bem sucedida em sua carreira, vencedora de prêmios de literatura, enfim, uma pessoa rica e de uma das alas dos privilegiados entre os passageiros. Mas ele simplesmente se apaixona, mesmo sem a conhecer de fato, a
não ser por seu perfil. É nesse momento que a história nos apresenta um dilema bem interessante. Jim fica cada vez mais instigado a querer uma companhia real, sucumbindo cada vez mais a uma dura solidão. Ele poderia acordála e sua solidão terminaria. Mas ele tem direito de fazer isso? Poderia