Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 61
Artigo
Minha cidade se chama...
Por Raquel Stanick
Ilustração: Yanara Vieira
D urante alguns anos ajudei a organizar a Marcha das
Vadias na cidade que escolhi chamar de minha casa. Essa
cidade se chama João Pessoa, mas seu nome sempre me
pareceu redundante. Mas nenhum nome vem sem causa,
não é?
De acordo com a Wikipédia a história foi a seguinte:
“Em 1928, Anayde iniciou um relacionamento amoro-
so com João Dantas, político local ligado ao Partido Re-
publicano Paulista, que fazia oposição ao então presiden-
te do Estado (governador) da Paraíba, João Pessoa. De-
pois do violento confronto político que deu origem ao
Território de Princesa, João Dantas acabou se refugiando
no Recife, mantendo o relacionamento com Anayde à
distância, através de cartas.
“João Pessoa reagiu, mandando a polícia revistar as
casas dos revoltosos e suspeitos, em busca de armas que
pudessem ser utilizadas em uma revolta armada. Um
desses locais foi o escritório de João Dantas na Cidade da
Parahyba, invadido em 10 de julho de 1930. Embora não
tenham sido encontradas armas, os policiais depredaram
as instalações e arrombam o cofre, onde foi encontrado
correspondências de Dantas, inclusive cartas e poemas
de amor recebidos de Anayde.”
Ui! Tem sexo, violência e glamour, não é?
Mas continua:
“Nos dias seguintes, o jornal governista “A União”, e
outros órgãos de imprensa estadual ligados à situação,
publicaram o conteúdo das mesmas, visando atingir a
honra de Dantas.
“Em 26 desse mesmo mês, João Dantas, acompanhado
de um cunhado, Augusto Caldas, entra na Confeitaria
Glória, no Recife, e dispara contra o peito de João Pessoa,
matando-o. Lavava, com esse gesto, a sua honra ofendi-
da, com sangue.
“Criticada publicamente por razões morais e políticas,
sentiu-se acuada após o assassinato de João Pessoa, que
causou comoção popular. Desse modo, abandonou a sua
residência na Paraíba e foi morar em um abrigo no Reci-
fe, onde passou a visitar João Dantas, detido em flagrante
e recolhido à Casa de Detenção naquela cidade.
(…)
“Anayde veio a falecer, dias depois, aos 25 anos de
idade, supostamente por envenenamento provocado por
ela, quando sob os cuidados de freiras. O seu corpo foi
sepultado como indigente no Cemitério de Santo Ama-
ro.”
Assim se consumou, pelo menos de acordo com a Wi-
kipédia, a mãe das burras (como eu), o nome da cidade
onde moro.
Antes de (também) criticar apenas um ou outro, lem-
bremos que o “Nego” na nossa atual bandeira é parte de
uma frase de João Pessoa que tentava livrar o Estado de
uma política oligárquica, na época representada pelos
Estados de São Paulo e Minas Gerais com aquele negócio
que a gente estuda em história e chamam de “Política do
Café com Leite”.
Pois é. Confusão.
E foi nessa cidade que, anos atrás, aconteceram algu-
mas edições da Marcha das Vadias . Durante esse tempo,
surgiram comentários machistas e preconceituosos que
pipocaram em muitos lugares, a exemplo de redes soci-
ais e veículos de informação, que, em muitos momentos,
me tiraram do sério. Hoje, comentários como aqueles já
não me parecem tão importantes perto de outros ditos
numa conversa de bar que acabei de ter e de fotos que
revi de mulheres e homens que, na Marcha, questiona-
ram falsas, limitantes e sufocantes noções de “moral”
que aprisionavam seus corpos e suas mentes em prol de
uma suposta ordem social, que nada mais era, e é, grosso
modo, o que possibilita manter o status quo dominante:
branco, masculino, heterossexual e classe média.
E o que Anayde (o sobrenome é Beiriz, se lhe interes-
sar) tem a ver com isso?
Anayde foi vista por aqui como a “prostituta do assas-
sino do Presidente”, na época em que viveu. Hoje, é ho-
menageada em casas populares e tem seu nome referen-
ciado em praças e escolas; é mote de mestrado e motivo
de orgulho de uma Paraíba feminina, mas “mulher ma-
cho, sim senhor”, retratada, inclusive, por Tizuka Yama-
zaki em filme.
Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017
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