Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 60

Pesquisar sobre artistas mulheres é visualizar-se num turbilhão de imagens que são urgentes e dispersas; é deparar-se com uma situação de resgate de existências em que aprendemos a guardar-cuidar de nossas referên- cias, como uma espécie de manutenção daquilo que, sa- bemos, são também nossas próprias vozes. Como "cacofonias" que podem gerar outros arti-fíccios quando criamos com elas. Não seria esse o movimento arquivís- tico do pensar-poeta que a tudo considera em seu traba- lho? Caco, sim, de caco mesmo. Fragmento, pedaço, esti- lhaço... ou qualquer coisa considerada como gasta, que- brada, incompleta... Ruim, má, menor, ínfima. Como, por exemplo, uma velha senhora instalada no vão de uma escada a contar esfacelamentos que ninguém ouve; ou uma menina de pernas abertas em uma lagoa a ficar pen- sando sobre "pernas abertas" em um caderno rosa de mentira. Personagens menores, coisa "insignificante", podem dizer; então é. Mas só aparentemente; numa perspectiva apenas, entre outras tantas. Isso se nos dis- pusermos a tecer nossas próprias versões atravessadas ao que chamam de "todo", "inteiro", "obra", "produto", "verdade" e "é isto". Grafia, porque se trata de desenho e palavra em ato, in-puro desejo procurando viver em mim, em ti, na poeta que ainda está. Cacografias , assim, são como exercícios de desejo, de visibilidade e de for- ma, feitos de sonhos e de sombras... Coisa subjetiva, coi- sa mal-dita, pois é. De relatos de sonhos, desenhos e grifos em livros, o desenho-desejo se mostra para que toda distância seja recuperada como forma, mas forma híbrida, pungente. Fui assim afetada pelas muitas sutilezas "ínfimas" deixa- das pela poeta em seus vestígios nas sombras pela casa e em papéis gastos e soltos, mas que mostram a força de seu processo de trabalho; a força de sua luta como poeta e mulher para viver e que, muitas vezes, não são consi- derados como "obra". Os arquivos consultados no CE- DAE (Centro de Documentação Alexandre Eulálio) da UNICAMP (Universidade de Campinas) foram fontes que vieram como complemento às intensidades vividas na Casa do Sol. Nessa pesquisa, selecionei desenhos e rascu- nhos poéticos sem maiores pretensões, assim como ano- tações noturnas de sonhos, que me levam a compor as páginas de quadrinhos com ela. Páginas-sensação, pági- nas vivas. A figura de Olga Bilenky também foi fundamental pa- ra a construção de uma presença poética de Hilda Hilst; sensível, guardiã, como uma alma viva da memória ma- terial e imaterial da poeta e do que foi vivido em sua pre- sença, junto com ela, na casa. Tudo cotidiano, circundan- te, voz, sombra, sonho, em que aos poucos vamos toman- do distância do mito e flexionando a poesia na própria vida. Tão crua e fragmentada, a vida, como não poderia deixar de ser. "Vou atrás das sombras da poeta para ver se é mulher..." – há uma mulher? Sim, mas há muitas ne- la... "Alguém, uma mulher nua com desenhos no corpo resolve voar e cola-se no teto"... Cacografias do Desejo. ¹ Em referência às personagens dos livros A obscena senhora D e Lori Lamby, de Hilda Hilst. 60 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017