Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 51

Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017 51
Não é de estranhar que, por longos anos, os versos tenham sido esquecidos e " apagados ". Somente em 1980, após serem resgatados pelo ex-deputado socialista e escritor José Joffily, é que foram publicados no livro Anayde – Paixão e Morte na Revolução de 30. Com um trabalho pioneiro de pesquisa, a obra registrou todos os passos da vida, amor e morte daquela mulher à frente de seu tempo. Nas páginas foram estampadas, para a posteridade, a história pessoal, fotografias, documentos e muitos dos escritos da jovem poeta parahybana.
Através da obra de Joffily, os versos de Anayde, dedicados a João, puderam, finalmente, ser lidos e comentados à luz de um tempo menos sombrio, mas que ainda era conservador no tocante aos direitos das mulheres. No entanto, foi somente meio século após a morte dos protagonistas que a Paraíba e o Brasil puderam conhecer a verdade da História. As páginas registraram, para o ontem, o hoje e o amanhã, a verdade do sentimento que uniu, indissociavelmente, as existências de João Dantas e Anayde Beiriz.
No início do século XX, a Província da Parahyba era uma sociedade patriarcal e prioritariamente agropecuária. Aqui também já despontava uma indústria embrionária, sendo a atividade mercantil a grande responsável pelo surgimento dos primeiros conglomerados urbanos na capital. A economia era gerenciada por apenas 200 famílias, que se alternavam na política, sob a liderança de Epitácio Pessoa. A chamada classe alta frequentava os clubes, a Maçonaria e a Associação Comercial.
Anayde não fazia parte desse universo social, em plena ascensão econômica. Nascida em 18 de fevereiro de 1905, na Rua da República, tinha origem pobre( o pai era tipógrafo em no jornal A União e gostava de nadar e de andar de bicicleta. Criada para seguir a fé católica, a menina fez a Primeira Comunhão aos 7 anos, na Catedral de Nossa Senhora das Neves. Em 1912, aos 17 anos, ela diplomou-se na Escola Normal, sendo reconhecida entre as melhores alunas da classe. Com uma ânsia infinita de aprender, foi diplomada na Escola Remington, no primeiro curso de datilografia da Parahyba. Ao lado de pouco mais de meia dúzia de alunas, ficou conhecida como a mais aplicada.
No entanto, apesar das qualificações profissionais, a normalista não conseguiu emprego nas escolas tradicionais da capital. Destemida, não teve dúvidas de buscar novos caminhos e aceitou o convite para ensinar numa colônia de pescadores, na Vila de Cabedelo.
Era criticada por uma sociedade patriarcal por não se adequar à vida“ normal”, na qual os homens tinham o poder do mando e sustentavam as famílias, enquanto que às moças restavam, tão somente, o casamento e os cuidados para com o marido e os filhos. Já nessa época, a jovem Anayde revelava a paixão pelo fazer poético. Ela também gostava de declamar e participava de saraus realizados na casa do médico José Maciel, do casal Alceu Navarro e do comerciante estrangeiro Mr. Davidson. Durante os saraus, recitava com vigor as poesias próprias ou de outros autores. Sob influência da Semana de Arte Moderna de 1922, ocorrida em São Paulo, a poeta / declamadora privilegiava a poesia sem métrica e sem rima.
Quanto à política partidária, parecia não lhe empolgar. Em seus escritos não há registros em defesa da luta pelo voto feminino. Simplesmente, Anayde era uma mulher que vivia uma revolução pessoal: usava cabelos curtos, namorava publicamente e gostava de arte e de moda. Nem de longe era vista como uma moça recatada, dedicada apenas ao lar e à família, cujo destino final seria o casamento.
Não tinha uma beleza estonteante. No entanto, tinha olhos negros que chamavam a atenção. Em 1925, Anayde concorreu e foi vencedora de um concurso de beleza promovido pelo Correio da Manhã – publicação estadual na qual atuava como colaboradora, escrevendo contos e poemas.
Na época, Anayde tinha apenas 20 anos e ainda não conhecia João Dantas. O encontro, que irremediavelmente mudaria sua vida, só ocorreu três anos depois, em 1928.
Até hoje, quase um século depois, não se sabe, com exatidão, como João Dantas e Anayde Beiriz se encontraram. Nem, tampouco, quando foi que se apaixonaram. Os detalhes de suas existências foram tragados pelo " esquecimento " e se perderam na poeira do tempo.
Seguindo os passos da pesquisa de José Joffily, o namoro começou no ano de 1928. Menos de dois anos depois, em maio de 1930, João já se encontrava refugiado em Pernambuco. Afastados por conta das perseguições aos perrepistas, os enamorados passaram, então, a se corresponder unicamente através de cartas e bilhetes. Estavam tão perto; tão longe...
Em 26 de julho de 1930 ocorreu a tragédia da Confeitaria Glória. O fato mudaria não apenas os rumos políticos da velha Parahyba, mas, principalmente, a vida pessoal do casal. No final da tarde daquele dia, o advogado perrepista João Dantas matou, na Confeitaria Glória, no Centro da cidade do Recife, seu adversário político, o liberal e presidente da Província da Parahyba João Pessoa.
No local, os acusados do crime( João Dantas e o cunhado, Augusto Caldas) foram presos e levados para a Casa de Detenção, no centro da capital pernambucana. Menos de três meses depois, em 6 de outubro de 1930, ambos foram encontrados mortos.

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