Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 50

Artigo O amor em tempos de revolução Por Thamara Duarte Ilustração: Yanara Vieira J oão era um advogado de 40 anos, taciturno e engaja- do politicamente. Em 1929, ele apoiou o coronel perre- pista Zé Pereira, que liderou a Revolta de Princesa e fez da cidade território livre do governo liberal do presiden- te João Pessoa. A extrovertida professora Anayde tinha 23 anos, era poeta, amante das letras, frequentava os saraus literários e escrevia para revistas e periódicos. Seres tão diferentes... Mas, em nome do amor, eles en- frentaram o conservadorismo do início do século XX, co- mo protagonistas de uma história intensa, apesar do cur- to período que durou, e que somente foi encerrada com a morte do casal. Na velha Parahyba do final da década de 1920 e início de 1930, Anayde Beiriz foi uma mulher que amou. João Dantas foi um homem apaixonado. Vítimas da intolerân- cia e do preconceito, eles não vivenciaram um enredo romântico e com final feliz. Durante anos, a História Ofi- cial mostrou-o como o assassino frio de João Pessoa. Ela era, tão somente, a “amante” do criminoso. A origem deste texto surgiu de uma palestra realizada para o seminário Anayde Beiriz – A Paraibana do Século XX . Em 22 de outubro de 2002, na escola CA-COC, em João Pessoa/PB, falei para jovens e professores, num evento coordenado pelos professores Assis Valle (já fale- cido) e Carlos Alberto Azevedo. Foi a primeira vez que pesquisei a vida de Anayde Beiriz... E não parei mais! No entanto, já trazia na memória afetiva uma passagem vi- venciada quando meu pai era ainda um menino. Muitas 50 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017 vezes, ele me contou sobre um fato ocorrido em 1930. Nas suas reminiscências mais queridas, guardava os de- talhes de quando tinha apenas 13 anos e foi levado, por um tio, a Recife, para visitar João Dantas na prisão. O olhar para o passado desta narrativa esquece a His- tória Oficial. Ao seguir por outro caminho, o desejo é (re) viver o romance vivido por Anayde e João. É enfatizar a trajetória de uma mulher que teve a vida despedaçada, ainda que involuntariamente, por conta da coragem de viver um grande amor, mesmo que esse sentimento fosse considerado fora dos padrões sociais/morais/sexuais da época. Os fatos históricos de 1930 revelam o ápice das rixas políticas entre perrepistas e liberais. Naquele ano, o es- critório do advogado João Dantas foi invadido e saquea- do pela Polícia. O imóvel – localizado num pequeno So- brado da Rua Direita (hoje Rua Duque de Caxias) – guar- dava alguns rifles e espingardas, além de muitas cartas e poemas de amor escritos pelo casal. Os documentos foram expostos à visitação pública, na Delegacia de Polícia, e causaram furor. Em especial, a população parecia chocada com um poema de autoria da jovem Anayde. O acróstico Sangue estava manuscrito nos cadernos da escritora e continha duas versões: Meu San- gue e Teu Sangue . Para uma sociedade conservadora, onde havia a submissão absoluta da mulher ao homem, os versos eram a prova inquestionável de que João e Anayde não eram apenas namorados: havia sim, entre eles, uma relação íntima e carnal.