Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 52

Não é de estranhar que, por longos anos, Anayde ainda tenha tentado permanecer na casa onde havia morado em seus últimos anos de vida: uma pequena edificação situada na rua Santo Elias, 176, no centro da capital parahybana. No entanto, as pressões e agres- sões não lhe permitiram seguir seu caminho em paz. Logo após a morte de João Pessoa, Anayde passou a ser constantemente humilhada pelos populares. Vista co- mo a "amante” do assassino, ela quase chegou a ser apedrejada! Resolveu, então, que iria fugir para Per- nambuco. Buscou abrigo entre as freiras do Asilo Bom Pastor, mas, na manhã do dia 22 de outubro de 1930, também foi encontrada morta. Segundo o laudo médi- co, havia se suicidado com veneno. No mesmo dia, Anayde foi enterrada como indigente no Cemitério de Santo Amaro. O paradeiro de seu corpo permaneceu desconhecido por 50 anos, até ser localizado por José Joffily e devidamente enterrado por familiares. O livro permitiu que a vida e a morte de João Dantas e Anayde Beiriz fossem (re)escritos. Pela primeira vez, o leitor conheceu a narrativa de episódios desconheci- dos, ignorados ou enterrados pela História Oficial. Ba- seado em exaustivas pesquisas, o escritor trouxe à tona um novo olhar sobre os episódios de 1930, um ano marcado, na Parahyba, pela revolução: na política e no amor. Muitas vezes, em seus escritos, Anayde parecia adi- vinhar o que viria acontecer no seu futuro. Como se fosse uma premonição, anos antes de conhecer João Dantas ela escreveu no Diário: “A altivez é o traço pre- dominante do meu caráter, porém minha mágoa mais dolorosa é saber-me impotente para vencer meu desti- no”. Anayde e João não foram entendidos pela Parahyba de 1930. No entanto, viveram e morreram sem temer as represálias às suas atitudes. Até o fim de suas exis- tências, foram firmes no propósito de alcançar a felici- dade. Conheceram o prazer de ter – e receber – a pleni- tude do amor. Como protagonistas de uma paixão avas- saladora, permanecem juntos para todo o sempre. Certa vez, no Diário, a poeta parahybana escreveu o maior dos sentidos para sua existência. Nos escritos, ela revelava o que lhe queimava a alma; que tomava como verdade o seu coração. Anayde Beiriz dizia: “Meu sonho de felicidade: um amor absoluto, imutável, mais forte que as leis da vida e da própria natureza”. 52 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017