Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 46

46 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017
Então é isso: ele / ela sabe algumas palavras na minha pouco conhecida língua natal e, talvez, tenha sido por isso que tudo começou, ou seja: nada. Realmente nada de concreto. Mas, quando ele( ou seria ela?) me olha com seu olhar de cobra, hipnótico... Me deixa louca. Uma lassidão tropical, uma disponibilidade de odalisca e uma ânsia de cocainômana.
Ele( por vezes tenho quase certeza) parece saber ainda menos de mim. Nas minhas fantasias noturnas, exagero demais quando a madrugada se aproxima e eu o chamo de meu amor. Declaro minha paixão a esse pequeno candidato a suicida com o vestido vermelho mais vulgar do mercado. Por vezes acho que acredita. A verdade é que excedo os limites, todos, quando tento convencer essa criatura cansada demais de todas as guerras, de todas as mentiras, de todas as noites fumacentas e sem estrelas, com esse meu discurso amoroso de merda. Roland Barthes em ciclamato.
Quarenta anos de janela, uma crise existencial resistente a todos os“ psis”, todos os sofás do mercado e eu nessa porta de banheiro. E minto. Minto muito. Com a crueldade dos que manejam o chicote. Minto quando sussurro sobre eternidade pelas frestas dessa porta barata tentando dialogar com a imagem de seu vestido vermelho único, pobre, ofuscante e com sua peruca de puro plástico. Minto principalmente quando digo que quero encontrá-lo amanhã e depois de amanhã, longe dos limites mofados dessa arapuca, sob a luz real e detonadora do sol, desprovida da magia das lantejoulas.
A verdade é que proclamar minha paixão por Eva( e vir lhe alugar os mistérios todas as noites em seu habitat fosforescente) é a mais deliciosa das minhas fantasias transitórias. Tão deliciosamente improvável. Não quero perdê-la. No meu estado normal, nas manhãs iguais, nas tardes mornas ou estupidamente geladas, na monotonia do dia a dia, prefiro homens do tipo vikings ou mulheres que cheirem à executiva. Enfim, todos aqueles que têm as maneiras implacáveis dos conquistadores. Alguém disposto a violar o mundo. Faço fila.

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