Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 47

Não, não quero nada com o ho- mem ou a mulher que Eva deve ser durante o dia. Nada de ver olheiras e rugas sob óculos escuros baratos. Nada de encontrá-lo (a) fazendo o supermercado na esquina. Seria o assassinato da fantasia. A morte do amor. Amor? Nesse momento, amor sim. Por que não? O fato é que, aqui, rainha absoluta desse buraco que chamam de recepção, onde ela dis- tribui pulseiras de plástico colorido Viver todas as posições do Kama- sutra não me excitaria mais. Foi assim, dançando a mais surre- alista das valsas naquele ambiente Techno, delírio do DJ marroquino que estuda música durante o dia, que rolamos sobre o tapete-ritual da casa usando o acaso para aproximar amantes indecisos. A regra era beijar ou agradecer e nós, nós rolamos so- bre o tapete território em meio à multidão dançarina. Rolamos numa de sangue escorrendo por debaixo da porta. Fui. Voltei ao salão lotado de olhos se devorando. Lá fora já deve ser manhã, pensei. As pessoas estão mais desesperadas. Cansaço. Bruno, Jean Jacques e Miguelito me esperavam no mesmo lugar aon- de eu os havia deixado. Uma mesa de canto que eu tinha conseguido à cus- ta de meu prestigio com Eva. Acho que ninguém tinha prestado atenção à minha desaparição e ao meu retor- “Nada de ver olheiras e rugas sob óculos escuros baratos. Nada de encon- trá-lo (a) fazendo o supermercado na esquina. Seria o assassinato da fan- tasia. A morte do amor. Amor? Nesse momento amor sim. Por que não? “ aos frequentadores que chagam em bandos, esperando indiferente as crianças da noite, meus irmãos, me sinto totalmente apaixonado por Eva. Quando dançamos pela primeira vez, joguei meu cheiro, meu suor, na sua cara. Era necessário lhe dar consciência do meu corpo. Foi assim: um dança que era uma cópula. Não sei que parte de Eva participou dessa dança lasciva, ritual. Ele/Ela me agarrou pelo pescoço como um cão pega uma cadela no cio, como um vampiro sedento, como um sobrevi- vente de um naufrágio pega um es- colho qualquer... Que sei eu? Tocava aquele bolerão do filme de Almo- dóvar: Talons Aiguilles . Salto Alto , lá nos trópicos. Sua respiração na mi- nha orelha, as cicatrizes que as suas unhas deixaram... queda total. Decisiva. Sob os aplau- sos entediados dos dançarinos can- sados das excentricidades da cliente- la. Pode-se morrer de desejo? Foi a primeira coisa que me ocorreu de- pois da dança e da queda. Lúcifer. Caí como ele. Desde então, como um vi- ciado pouco exigente que corre atrás da dose-nossa-de–cada–dia eu venho procurar a minha ração de Eva. Na maioria das vezes em segredo, naturalmente, como só as pessoas que tudo ousam sabem fazer tão bem. Bati na porta sórdida daquele banheiro com a autoridade do cúm- plice rejeitado. Além do mais por um travesti maluco numa noite ainda mais maluca de verão. Eu não só bati naquela porta. Eu quase a demoli. Foi quando vi o filete no. Exceção para Miguelito que olha tudo e todos com aquele seu olhar antigo de inca. Gerações e gerações de alucinações rituais devem ser res- ponsáveis por aquela quase clarivi- dência. Somente ele sentiu meu des- lizar pelos corredores escuros e deve ter percebido o sangue no fundo dos meus olhos rasos. Somente ele sabia que era o solstício de verão e que coisas especiais acontecem nessa noite. Miguel não perguntou nada. Pe- gou minha mão e saímos mudos pelo fim da noite antiga do país d´Oc. O sol já se metia atrapalhando o escu- ro. Os olhos das pessoas já não se encontravam mais. Depois, ele me abraçou embaixo de uma árvore perto do rio que é a alma da cidade, me abriu as pernas e eu cerrei minha alma. Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017 47