Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 45

Conto Salto Alto Por Madalena Zaccara Fotografia: Li Vasc C orri, corro, correrei. O som am- biente é qualquer coisa entre o mais puro tecno - pop entremeado de li- geiras fantasias que vão da música árabe ao rondó veneziano. A palavra de ordem é: nada além do aqui e ago- ra. Escorrega, esse subsolo úmido. Bolor, puro bolor, para além dos ta- petes do tipo falso-persa. Babo. Sinto o prazer que se aproxima. Antecipo a fantasia de morder teus ombros de- cotados. Tudo é indistinto, flutua, inexiste, para além do meu dese-jo. Acho que vou gritar: um grito mesti- ço, um grito mormaço. Por um deses- pero agradável à la Satie. A criatura se fechou. Fugia dos meus gritos? Trancou-se no que ou- sam chamar de toalete: o buraco mais fedido deste paraíso noturno feito de luzes artificiais e som histéri- co e repetido. Do tipo bate-estaca. Queria arrombar a porta. Eva... Na verdade não sei quase nada de Eva. O nome é por minha conta. Só que estuda ou estudou por- tuguês – curso qualquer por corres- pondência - e que trabalha de recep- cionista nesse céu barato para malu- cos em geral no cio. Esse lugar, esse covil meio maldi- to, meio turístico, exerce sobre mim a atração dos abismos. Não posso (ou quero) escapar ao seu fascínio. Minhas narinas se dilatam, o coração bate mais rápido e eu mergulho, com a mais profunda felicidade, na sua escuridão conivente com os meus, os teus, os nossos delírios. Essa gaiola, feita para aprisionar anjos negros, me pegou faz algum tempo: uma ar- madilha. Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017 45