26 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017
“ Incansáveis, as mulheres negras resgatam, reinventam e recriam suas experiências do passado, tornando o século XX um cenário marcado pelas reivindicações de moradia, saúde, educação, cultura e respeito, num processo contínuo e acumulativo que desembocaria no século atual.”
Exímia guerreira, com ideias bem definidas sobre as estratégias e táticas contra os invasores, Cipriana ajuda os palmarinos a derrotá-los por continuadas vezes. Consciente de si, ela é a primeira mulher no Brasil a afirmar o incondicional apreço feminino à liberdade. Atenta aos problemas do feminino, em meio à luta geral, Cipriana insurge-se contra a tirania de qualquer espécie, afirmando que não seria escrava de ninguém; nem de branco, nem de negro. Nessa autonomia do feminino, anteciparia a defesa do poder da mulher sobre o próprio corpo. Sob os céus de Palmares, Cipriana faria ecoar o primeiro libelo feminista de nossa história, tornando-se, assim, precursora do feminismo brasileiro.
Da República de Palmares emerge, ainda, a figura notável de Dandara. Quilombola como Cipriana, também enfrentaria, de armas na mão, a brutalidade que afligia os africanos e os afro-brasileiros em nossas terras. Comprometida com a reorganização de seu povo, Dandara alternaria a vigilância guerreira com as pesquisas medicinais. Nessa alternância de afazeres, terminaria por descobrir, na mistura de ervas, os meios medicamentosos para a prevenção e a cura das doenças femininas, como também dos males sexualmente transmissíveis. Da manipulação de nossa flora, Dandara adquiriu importantes saberes que deixaria como herança à medicina brasileira. Para essa práxis, se voltariam, recorrentemente, as mulheres negras, como a obstetra e ex-escrava Mãe Luzia( 1854 – 1954), primeira mulher negra a ser reconhecida como doutora, no Amapá.
Presente nos mais diversos combates emancipatórios, a mulher negra também se destacaria nos movimentos revolucionários que mobilizavam o espaço urbano brasileiro. Da Bahia, lócus privilegiado dos grandes embates negros, nos chegam os ecos do discurso enérgico e organizador de Luíza Mahin, pertencente à nação Nagô.
Culta, livre e inteligente, Luíza Mahin transformou a sua casa num verdadeiro quartel general de rebeliões negras que ocorreram em Salvador, no século XIX. Antiescravagista ferrenha e ativista brilhante das causas negras, Luíza Mahin, mesmo grávida, foi uma das mais importantes lideranças da Revolta dos Malês, em 1835. Dessa revolucionária negra, deportada para a África, ou simplesmente eliminada pelos interesses imperiais, nasceria Luiz Gama, primeiro poeta abolicionista de nossa literatura.
Da mãe, Luiz Gama herdaria o amor à liberdade e o comprometimento com seu povo, adquirindo, com sua própria vivência, um sentimento de brasilidade que o faria desenvolver a campanha por um Brasil sem rei nem escravo. Acostado aos ideais republicanos, frequentaria, como ouvinte, a Faculdade de Direito, dedicando-se, posteriormente, à luta jurídica de libertação de escravos. Nessa atividade, defenderia os escravos acusados de assassinato, afirmando, sempre, que o escravo que mata o senhor, seja em que circunstância for, mata sempre em legítima defesa. Pioneiro da luta abolicionista em São Paulo e no Brasil, o filho de Luíza Mahin morreria em 1882, seis anos antes da Carta de Abolição.
Apesar de revestida de grande importância pelo discurso caviloso de nossos compêndios escolares, em especial os de História, a Abolição em quase nada alteraria a violência hierárquica que comandava, e ainda teima em comandar, as relações sociais e étnicas em nosso país. Excluídas das condições que lhes garantissem assegurar, dignamente, suas próprias existências, impedidas do acesso à educação e à saúde, impossibilitadas de ocupar cargos públicos ou de participar do processo da criação cultural, confinadas às cozinhas brancas como eternas Borralheiras, as mulheres negras se apercebem do muito ainda a ser feito para que fossem, realmente, livres.
Incansáveis, as mulheres negras resgatam, reinventam e recriam suas experiências do passado, tornando o século XX um cenário marcado pelas reivindicações de moradia, saúde, educação, cultura e respeito, num processo contínuo e acumulativo que desembocaria no século atual.
26 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017