Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 25

A luta das mulheres, especialmen- te das mulheres negras brasileiras, apesar de tão antiga quanto à forma- ção de nossa própria nacionalidade, ainda tem muito chão para trilhar, muitos nós a desatar, em meio ao ás- pero e esgarçado tecido das relações étnicas e sociais do Brasil. Personagens de nossas dores inici- ais, as mulheres negras têm enfrenta- do um caminho difícil e penoso na resistência às mais variadas formas de violência, ao longo de nossa jornada histórica. Cercadas, desde o início, por um ambiente hostil e adverso, as mu- lheres negras aprenderiam a mover- se, com determinação e ousadia, num percurso incessante de enfrentamento das adversidades. Nessa aprendiza- gem, criariam, entre nós, a tradição da participação feminina nos debates e ações que tentam alterar os caminhos de nosso país. Ícone do apreço à liberdade e à dignidade humana, a mulher negra constitui uma presença ativa e decisi- va, nas mais diversas fases de nossa história. No contexto de preparação e de realização das grandes fugas, va- mos encontrá-la na figura de Tia Ana, no interior do Ceará, em 1835, como líder de uma revolta de escravos que culminou com a morte de todos os feitores e dos proprietários da fazen- da. No Sudeste do país, também en- contraremos Mariana Crioula, aos trinta anos de idade, liderando uma das maiores fugas de escravos da his- tória fluminense e brasileira, em 1838. Acuada pela Guarda Nacional do Império, Mariana Crioula reverbera- ria, com altivez, que preferiria a morte ao ato de rendição. Seria executada em 1839, tornando-se conhecida co- mo a Rainha dos Quilombos. No Norte do Brasil, nos deparamos com Teresa do Quariterê, envolvida no processo das fugas coletivas e de criação de Quilombos. Já dotada de um senso raro de brasilidade, Teresa do Quariterê liderou, em pleno século XVIII, um grupo de negros e índios contra os escravocratas. Dessa forma, essa líder quilombola realiza, pionei- ramente, a unidade negra e indígena em nosso solo. Seja nas operações de fuga, nas ações de criação e defesa de Quilom- bos, na criação de Irmandades ou nas rebeliões urbanas, a participação das mulheres negras seria marcada pela coragem, ousadia e pelo alto nível de elaboração teórica e de ação prática, como se pode comprovar através da trajetória de Cipriana, companheira de Zumbi, na defesa intransigente da liberdade readquirida. Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017 25