Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 27

Em São Paulo, movida pelo pro- pósito de assegurar à população ne- gra uma efetiva participação na soci- edade, a empregada doméstica Lau- delina de Campos Melo (1904 – 1991), ingressa na Frente Negra . Dessa Frente, lutaria, com destemor, pelo aprimoramento cultural, pela conscientização social e pela partici- pação política do povo negro, reen- saiando os passos de Maria Firmina dos Reis, professora e primeira ro- mancista abolicionista brasileira, excluída, ainda hoje, do nosso câno- ne literário. Em 1936, Laudelina participa ativamente da fundação da Associa- ção de Empregadas Domésticas em São Paulo e em Santos, ficando res- ponsável pela Associação de Santos. Em 1982, esta seria transformada em Sindicato dos Trabalhadores Do- mésticos , passando, então, a tratar os conflitos entre empregadas e pa- troas na perspectiva de classe. Essa luta ocuparia Laudelina por toda a vida. Firme, prioriza a campanha de sindicalização dessas profissionais, num processo que revoluciona as relações do trabalho doméstico. A esse processo se ligariam milhares de Laudelinas, como Benedita da Silva, a Bené. Pobre e negra, Benedita da Silva foi criada em favela. Ainda criança, auxiliava no sustento da família ven- dendo limão e amendoim. Nos perí- odos mais difíceis, catava comida no lixo. Numa trajetória marcada pelo pioneirismo e superação, Benedita da Silva se tornaria a primeira mu- lher negra a governar um Estado brasileiro. Foi vereadora, duas vezes deputada federal e governadora do Estado do Rio de Janeiro, pelo Parti- do dos Trabalhadores-PT. Seus man- datos foram marcados pela defesa das causas das mulheres e dos ne- gros. De sua atuação como parla- mentar, deixa-nos, como legado, o reconhecimento da profissão de em- pregada doméstica, ofício que ela mesma exerceu durante grande par- te de sua vida. Na busca da valoriza- ção da cultura negra, cria o Dia Naci- onal da Consciência Negra, que ho- menageia Zumbi. Foi também autora de dois importantes projetos incluí- dos na Constituição: a licença- maternidade de 120 dias, a proibi- ção de diferença salarial entre ho- mens e mulheres e o direito das pre- sidiárias em permanecer com os filhos durante todo o processo de amamentação. Nesse caminho, também encon- tramos Lélia Gonzáles (1935–1994). Doutora em Antropologia, professo- ra (PUC - RIO), essa feminista negra tornar-se-ia, nos anos 70, uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU) e do grupo Olo- dum, de Salvador-BA. Militante de diversas organizações, entre elas a do Instituto de Pesquisas das Cultu- ras Negras (IPCN) e do Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga, Lélia Gon- záles disputaria uma vaga na Câma- ra Federal, pelo Partido dos Traba- lhadores-PT, logrando alcançar a primeira suplência. Na graça e na raça, essas inúme- ras Ciprianas, Laudelinas, Beneditas e Lélias têm mudado a feição brasi- leira. A elas e a todas as guerreiras, na maioria ainda anônimas, quere- mos prestar as nossas mais carinho- sas homenagens e dizer da nossa muita, muitíssima gratidão. Mais particularmente, reiteramos a nossa alegria em usufruir da companhia de duas delas – a professora Fátima Solange e a psicóloga e professora Socorro Pimentel – em nosso Fórum. A todas as mulheres negras, como também à mulher imigrante e à mu- lher camponesa, a nossa mais frater- na ternura. Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017 27