Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 22
MARIA DOS PUDORES
M aria tinha na vida dois segredos guardados.
Desejos que guardou numa cômoda onde seu olhar não os pudesse ver.
E seus pudores que embrulhou num manto, como se embala criança ao nascer.
A dona acordava às 5:00 e com ela despertava a ânsia de entender-se mulher, mas engolia o devaneio,
varria o terreiro, passava o café.
Presa na vida, fazendo o que mandavam os homens que a cercavam, pra sua alma dizia sempre: NÃO! - de cabeça
baixa.
Rezava a avemaria tentando livrar a mente da vontade de ser mais por dentro do que os de fora lhe enxergavam.
(Com as mãos sempre afastadas do corpo, que pedia, que suplicava)
Todas as noites, abria a gaveta e tirava de si os desejos pra trancar na cômoda,
e deitava com seus pudores, guardados entre as pernas, apertando-lhe as vontades para assim continuarem sendo,
vontades.
Certa noite, ao deitar, se questionou se era mesmo seu o corpo que habitava. Não o conhecia, não fazia nele casa.
Seu desejo foi crescendo enquanto ela se tocava.
Boca, nuca, seios.
Cintura, coxa... receio.
Os pudores que guardava a impediam de seguir. Sua alma gemia tentando sugar o mundo.
Entorpecida pelo desconhecido, calçou o pudor como luva, e continuou o trajeto. Dona do próprio corpo, dona do
próprio gozo.
Com as mãos entre as pernas, na úmida liberdade do desejo, abriu gavetas, portas, trancas, tirou peso.
Viu que podia ser mais do que Maria de seu ninguém, que seu corpo só precisa se perder no orgasmo dele mesmo.
Maria, agora, não é mais dos pudores, nem das dores.
Maria é dela mesma, da vida, dos amores.
22 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017