Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 11

Artes Visuais Mortalha Por Luciana Nepomuceno Fotografias: Raquel Stanick www.mortalharaquelstanick.blogspot.com.br D iz-se que a beleza é o véu que encobre o horror. O horror da falta que nos estrutura como humanos. Nossa finitude. Os buracos. Os vazios. O oco do mundo. A beleza é o que nos protege e eleva. A beleza transforma- da em arte, por vezes, quando existe a coragem da artista, cumpre um duplo papel: vela e desvela. Hipnotiza. Pren- de o olhar ao horror e nos vincula a ele. A beleza se torna uma pergunta. Mais, uma injunção. Assim se faz a série Mortalha , da artista Raquel Stanick: com essa cora- gem de encarar o horror e fazê-lo be- leza. Não apenas a beleza que embota as vontades e disfarça as ausências, não apenas a beleza que acalenta e sossega. A beleza que convoca, deses- trutura e incita. A exposição é composta de 60 pe- quenas pinturas em papel que, em ca- da um de seus títulos, conta nome e idade de uma mulher vítima de femi- nicídio ou de outros tipos de violência. Nelas, a artista usa os símbolos gráfi- cos do crochê sobre fundo preto como técnica, com uma inteligência artística que demanda (re)conhecimento. O crochê é um artesanato destinado a mulheres – diz a cultura. Em Mortalha , Raquel Stanick utiliza-se do que é im- posto para reinventá-lo como denún- cia. Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017 11