Anayde- Revista de Cultura Feminista Out.2017 | Page 12

O crochê também faz referência ao fio da vida. Fio este que foi corta- do, como conta-nos cada trabalho, de forma abrupta. A artista dá parti- cularidade a cada narrativa, resis- tindo à violência massificadora que dilui a especificidade de cada mu- lher e insiste em remetê-las a um fim único: opressão e silenciamen- to. Muitas vezes, aniquilação. Uma mortalha guarda. Esconde. Envolve o cadáver e o protege do nosso olhar. O que as pequenas te- las, bela e corajosamente fazem, é velar e desvelar o horror da morte dessas mulheres. Pouco referindo- se às vidas das mulheres homena- geadas, as telas nos lembram que não nos deveria ser permitido con- templar placidamente os cadáveres que cada quadro-mortalha invoca e protege. Os pequenos quadros, imensos em seus significados e im- pacto, aprisionam nosso olhar e nos dizem que estamos implicados. De- mandam mais que contemplação, exigem posicionamento. Raquel Stanick é uma artista de coragem, volto a isso. Sendo mu- lher, ao fazer uma série que narra a violência sobre um grupo que com- põe, implica-se no processo. Mas, ao fazê-lo com técnica e sensibilidade, o supera e, transcendendo esse lu- gar de vítima em potencial, deixa suas mãos darem forma e rumo à narrativa. Se faz sujeito. Faz mais. Faz arte. 12 Anayde – Primeira Edição – Outubro de 2017