A Linguagem da Vida BE_SM_60_JAN_19 | Seite 11

11 • Nº 60 • Janeiro 2019 • N osso B em E star rativos e, desde 2003 promove a comuni- cação não-violenta (CNV). Começou a ler o livro do Marshall e conhecer a profundi- dade do método que o ajudou a conseguir lidar com a situação. Desde então, a CNV é a base de sua prática espiritual. “Comecei a olhar com mais clareza para minhas próprias questões de manei- ra auto-acolhedora e com maior aceitação. Neste processo, muita coisa foi se transfor- mando dentro de mim e muitas dificulda- des que eu achava que não conseguiria mu- dar, com a prática de me escutar, fui des- bloqueando. Naturalmente, quando você muda por dentro, toda a sua vida muda: as relações com as pessoas, com a família e sua postura diante do mundo. É na verda- de uma experiência mágica e difícil de des- crever. Até a forma congelada que olhamos para a realidade muda. A CNV nos traz o aspecto criativo e devolve nossa capacida- de de abertura para construir as coisas em uma direção diferente”, explica Jader. Há um ano, Jader facilitou seu primeiro trabalho em Comunicação Não-Violenta dentro de uma Escola Municipal na Lomba do Pinheiro e, recentemente, passou a ofe- recer grupos de prática em Porto Alegre. “Como facilitador, tem sido uma experiên- cia rica de crescimento, além de bastante desafiadora. Não é fácil lidar com as ques- tões emocionais e sutis das pessoas. Exi- ge muita sensibilidade, mas vale a pena! O objetivo dos grupos é que as pessoas pos- sam, verdadeiramente, colocar em prática os princípios da CNV, promovendo trans- formações em suas vidas, desenvolvendo a empatia e interagindo consigo e com os ou- STOCKPHOTOSECRETS/BE M atéria “Com a CNV descobri quem eu sou. Constatei emoções como raiva, tristeza, medo, insegurança e procurei saber de onde elas vinham. Adquiri liberdade e responsabilidade pela minha própria felicidade”. tros de forma mais humana e menos agres- siva em todos os âmbitos. Além de terem um aspecto curativo e de acolhimento, os grupos nos fortalecem enquanto um siste- ma de apoio, para que possamos nos em- de C apa poderarmos e, caminharmos juntos rumo às transformações que queremos promo- ver na sociedade”. Em abril de 2015, impossibilitada de matricular-se na graduação em Psicologia, Karen Mello decidiu aproveitar da melhor maneira o semestre, já que não poderia es- tudar. Foi em um grupo de Yoga que co- nheceu o facilitador de CNV, Tiago Bueno. Na hora, identificou-se: “Queria e precisa- va daquilo, pois sempre me considerei e fui considerada uma pessoa agressiva com as palavras e já tinha reparado nas consequên- cias de tudo isso. Eu queria ser menos vio- lenta com minhas palavras”, relata. Karen conta que encontrou no grupo um sentimento de pertencimento e autoa- ceitação. Como estava com bastante tem- po livre, frequentava grupos até três ve- zes por semana: “No início pensei que se- ria algo para me modificar, até perceber que foi o contrário. Com a CNV desco- bri quem eu sou. Constatei emoções como raiva, tristeza, medo, insegurança e pro- curei saber de onde elas vinham. Adqui- ri liberdade e responsabilidade pela minha própria felicidade. Minhas relações se tor- naram mais autênticas, livres e com menos dependência, sem culpar os outros pelo que eu sentia”. Hoje, Karen trabalha com práticas re- gulares e abertas de CNV, proporcionando aos outros a experiência positiva e trans- formadora que ela própria vivenciou. Os grupos atuam na forma de corresponsabi- lização financeira, ou seja, sem um investi- mento fixo. Os gastos envolvidos para que o evento aconteça são compartilhados, as- sumindo, assim, um caráter mais inclusivo e atingindo um número maior de pessoas. CNV e a educação Em virtude dos índices de violência te- rem se tornado insustentáveis dentro das instituições de ensino, Jader Mendes foi procurado pela equipe diretiva de uma es- cola para ajudar a lidar com esta questão e desenvolver, entre todos os integrantes, uma cultura de paz. “O resultado é que hoje temos um gru- po de práticas de CNV para os professo- res e muitos já mudaram bastante a forma como dão suas aulas. As crianças estão cor- respondendo melhor afetivamente e de ma- neira criativa. Também já realizamos rodas de escuta e sonhos coletivos com professo- res e funcionários. Agora, estamos nos pre- parando para ouvir os pais e alunos traçan- do, assim, um grande mapa de necessidades da escola. A ideia é que possamos reavaliar o modelo tradicional da educação e cons- truirmos coletivamente uma escola baseada em valores humanos, como a compaixão e a solidariedade”, esclarece o facilitador. Usar o princípio da comunicação não violenta não é uma tarefa fácil. Esta práti- ca depende de disposição, de um desejo de melhorar a si próprio e as nossas relações. É um exercício profundo e de grande po- tencialidade de transformação pessoal e so- cial. Vale a pena conhecer e praticar! ELISA DORIGON é jornalista