A democracia sob ataque | 页面 97

Um silêncio que grita
Ana Maria Machado

Há um detalhe em Dom Casmurro, que sempre me toca. Miúdo, sutil. Talvez tenha me batido fundo porque eu tinha a idade da protagonista quando li o romance pela primeira vez e me identifiquei com ela. É um indício que revela com nitidez quem é Capitu, o que uma adolescente podia esperar em matéria de educação na época da ação, e como Machado de Assis estava atento a essas limitações. Neste Dia Internacional da Mulher bem que podemos recordá-lo.

A menina Capitu quer estudar latim. Mesmo sendo mulher. E vai buscar os meios para isso, recorrendo ao padre, ainda que todos zombem dela. A curiosidade ou a sede de conhecimento fala mais alto que qualquer zombaria ou proibição.
Anos mais tarde, encontrei a mesma consciência em Virginia Woolf. Ao comentar os obstáculos para uma mulher se tornar escritora, a romancista inglesa analisa a importância de ter um quarto todo seu onde pudesse escrever sem ser interrompida, mas assinala também as barreiras que lhe proibiam estudar grego e latim, impedindo-a de ter uma formação clássica e de conhecer filosofia, história e ciência, numa época em que a maioria dos autores da Antiguidade ao Renascimento não estava traduzida para as línguas modernas e mesmo o saber mais recente em geral era fixado em textos escritos em latim.
Cabia à mulher manter o funcionamento de tudo. Desde fiar, tecer e costurar os trajes da família cujo tecido fabricara na roca e no tear, até fazer o sabão com que lavaria no rio ou tina a roupa suja ou a louça da janta que cozinhara( após matar o frango ou o porco, fazer a linguiça, o pão e a conserva). Além de cuidar dos filhos e da casa, nas eventuais horas vagas se sua situação social permitisse, mulher podia se dedicar apenas às chamadas prendas domésticas – bordar, fazer crochê e tricô, tocar piano para distração em saraus domésticos, desenhar ou pintar aquarelas. Os romances europeus dos séculos XVIII e XIX por vezes as retratam nessa atividades. Mas a memória desse resultado ficou apagada. Um nome como o de Clara Schumann na música é uma raridade.
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