A democracia sob ataque | Page 98

Escritoras pioneiras notáveis conseguiram furar um pouco esse bloqueio, mas em números muito reduzidos. Porém as artistas plásticas em sua quase totalidade foram relegadas ao silêncio e ao esquecimento, salvo pouquíssimos casos, quando eram filhas, irmãs ou esposas de artistas que as incorporavam a seus ateliês. Ou então constam dos registros apenas como eventuais modelos, quando também posaram para os colegas, sobretudo no renascimento italiano ou no impressionismo francês. Mas, em geral, nem seus nomes sobreviveram na História da Arte.
Agora as mais recentes levas dos movimentos feministas estão fazendo um trabalho admirável na pesquisa, resgate e reconhecimento dessas artistas esquecidas e silenciadas. Com isso, descobrimos tesouros.
No ano passado, pela primeira vez o Grand Palais de Paris dedicou seus salões à retrospectiva da obra de uma mulher, Elisabeth Vigée LeBrun, seguindo o exemplo do Museu Marmottan que revelara a extraordinária qualidade do conjunto da obra da impressionista Berthe Morisot. Este mês, logo após o fim da grande mostra sobre Clara Peeters no Prado, em Madrid, agora a Galeria Uffizzi de Florença inaugura dia 8 uma exposição da freira renascentista Plautilla Neri e anuncia que vai tirar dos porões pinturas e esculturas feitas por mulheres como Marietta Robusti, até aqui só vistas com hora marcada, por pesquisadores.
E o Museu Pitti vai abrir uma mostra da austríaca Maria Lassnig, enquanto o Canadá acaba de revelar que a cultuada obra assinada por C. L. Davis, até aqui atribuída a um homem, na verdade é de autoria de Carolina Davis.
Então, neste Dia da Mulher, quero lhe dar um presente. Marcante, rico, inesquecível. Você vai me agradecer pela dica. Há na internet uma janela para essas artistas, de épocas e países diferentes: @ female. artists. in. history. Cadastre-se e passe a receber o resultado de uma notável garimpagem de obras de mulheres, com suas biografias e referências. Aos poucos descobrirá suas predileções. Umas são mais marcantes que outras – exatamente como acontece com artistas homens. Mas o conjunto é instigante.
Ao contrário deles, elas não podiam estudar anatomia ou desenhar modelos nus. Não nos trazem grandes cenas épicas, batalhas, temas bíblicos ou mitológicos. Também não eram contratadas por mecenas para retratar poderosos. Pintam o cotidiano, o trabalho comum, seus afazeres, os interiores das casas, as naturezas mortas que se multiplicavam na mesa da cozinha ou
96 Ana Maria Machado